O que responde o psicanalista? Ética e clínica

Publicado: sexta-feira, 6 janeiro, 2012 em psicanálise

Reproduzo aqui o excelente texto do Fabiano Camilo do blog Dispersões, delírios e divagações

“Eu não escolhi ser gay.”
“Eu não escolhi ser lésbica.”
“Eu não escolhi ser bissexual.”
“Eu nasci gay.”
“Eu nasci lésbica.”
“Eu nasci bissexual.”

As frases acima se tornaram dominantes no discurso mediante o qual gays, lésbicas e bissexuais expressam uma compreensão de suas sexualidades, de suas trajetórias de vida e de si mesmos. No início da década de 1990, o termo ‘orientação sexual’ começou a se tornar recorrente, proposto em substituição ao termo ‘opção sexual’, que passara a ser considerado equivocado e cuja utilização, hoje, é severamente criticada. Os indivíduos não possuem uma opção sexual, mas uma orientação: ninguém escolhe ser gay, lésbica ou bissexual.

Esse entendimento da sexualidade humana, que funda a constituição do desejo na natureza, ao mesmo tempo em que define uma representação de si construída por gays, lésbicas e bissexuais, consiste em uma estratégia política. Contra o discurso conservador que proclama a normalidade do heteroerotismo como desejo e prática que defluem da natureza, da qual haure sua legitimidade como única forma válida de experienciação da sexualidade, se opõe um discurso que defende a idêntica normalidade do homoerotismo e do bierotismo, como desejos e práticas que também emanam da natureza. Se ninguém escolhe ser, se se nasce gay, lésbica ou bissexual, não é justificável discriminar alguém cujo desejo é uma determinação natural e que não optou por ser quem é.

Há um conflito latente entre essa autocomiserativa representação de si e a ideia de orgulho gay, lésbico e bissexual. Os não-heterossexuais imploram aos heterossexuais que concedam a gentileza de tolerar sua alteridade. Há também uma perversidade nessa concepção das sexualidades homo e bi. Se a legitimidade do direito à diferença reside no fato de que gays, lésbicas e bissexuais não escolhem ser quem são, se pode concluir que, caso escolhessem, estaria justificada a discriminação? Como a pergunta à resposta evidentemente não pode ser afirmativa, julgo que é necessário ultrapassar uma estrutura binária de entendimento da sexualidade humana, baseada nos polos natural e antinatural, normal e anormal, para denegar a normalidade não apenas às condições gay, lésbica e bi, mas também, e sobretudo, à própria condição hétero.

O belo musical Canções de amor, do cineasta francês Christophe Honoré, está entre os filmes que melhor conseguiram apreender a fluidez do desejo e do amor no Ocidente contemporâneo. Ismaël (Louis Garrel) e Julie (Ludivine Sagnier) estão juntos há oito anos e mantém uma relação a três com uma colega de trabalho dele, Alice (Clotilde Hesme). Os dois se amam, mas Julie é infeliz, se ressente porque o marido não lhe dispensa toda a atenção pela qual ela anseia. Após a morte súbita de Julie, Ismaël é dominado por uma melancolia que o impede de se envolver novamente. Ele se sente culpado pela infelicidade de Julie e prefere não tornar a amar, por receio de não ser capaz de corresponder às expectativas do outro e por medo de sofrer, como sofreu com a perda da mulher. Contudo, seu caminho se entrecruza com o de Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet), um estudante do último ano do liceu. O rapaz se apaixona por Ismaël à primeira vista e se empenha na árdua tarefa de conquistar o jovem viúvo relutante, que, contra a própria vontade, termina se apaixonando também. Ao final, Ismaël se entrega ao amor, mas pede a Erwann: “Me ame menos, mas me ame por mais tempo”.

Ao longo da história, nenhum dos personagens define para si ou para os outros uma identidade sexual. No entanto, a contemporaneidade de Canções de amor não se encontra tanto na renúncia dos personagens a nomear o desejo e, por conseguinte, a identificá-lo, mas na representação do desejo como um fenômeno instável, fluido, movente. O desejo não está fixado em um lugar determinado, de onde dissemina seus efeitos. O desejo é nômade, não se fixa, está em nenhum lugar. É um incessante devir.

Pode-se criticar o exemplo que forneci como sendo inapropriado, com o argumento de que Canções de amor é uma obra de ficção, não mantendo, necessariamente, correspondência com a realidade. Apesar de reputar equivocada essa possível crítica, acrescento uma história verídica narrada por Anthony Giddens em A transformação da intimidade:

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… a sexualidade torna-se livre; ao mesmo tempo que gay é algo que se pode “ser”, e “descobrir-se ser”, a sexualidade abre-se a muitos propósitos. Assim, The Kinsey Institute New Report on Sex, publicado em 1990, descreve o caso de um homem de 65 anos de idade cuja mulher morreu depois de um casamento feliz que durou 45 anos. Um ano depois da morte de sua esposa, ele se apaixonou por um homem. Segundo seu próprio testemunho, jamais havia sentido atração por um homem ou fantasiado sobre atos homossexuais. Este indivíduo agora professa abertamente sua orientação sexual alterada [...]. Será que há alguns anos ele teria concebido a possibilidade de poder transformar desta maneira a sua “sexualidade”?

GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Universidade Estadual Paulista, 1993. p. 24.

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Não estou sustentando que a sexualidade humana não mantenha nenhuma relação com a herança genética. Sem embargo, me parece que predomina uma sobrevalorização do conhecimento construído pelas ciências naturais acerca da sexualidade, em detrimento daquele produzido pelas humanidades. As pesquisas realizadas no âmbito das ciências naturais se esforçam para explicar por que existem seres humanos homossexuais e bissexuais. O primeiro problema está no pressuposto não enunciado. Na medida em que o homoerotismo e o bierotismo são concebidos como modalidades de desejo que precisam ser explicadas, a pergunta pode ser reescrita do seguinte modo: por que existem seres humanos que não são heterossexuais? Conquanto o ponto de chegada possa ser a conclusão de que o desejo e a prática homoeróticos e bieróticos também pertencem ao domínio da natureza, são normais, o ponto de partida é a necessidade de explicar aquilo que aparenta estar fora da natureza e ser um distúrbio ou, como se acreditava outrora, uma doença.

Há um segundo problema, o fato de que as pesquisas são realizadas com indivíduos que pertencem a sociedades heteronormativas, que foram submetidos a processos de endoculturação destinados a torná-los heterossexuais. Toda manifestação de desejo por uma pessoa do mesmo gênero é considerada anormal, devendo ser reprimida, pelos outros e pelo próprio indivíduo. Nesses processos, se aprende não somente a sentir atração pelo gênero certo, mas também a valorizar e gostar dos objetos e das práticas que a cultura classifica como pertencentes a cada gênero. A sexualidade pode estar relacionada à hereditariedade, porém está vinculada também à cultura e à socialização. A orientação do desejo não deriva meramente de uma determinação biológica. Se tentássemos, provavelmente não conseguiríamos imaginar como seria uma sociedade onde não houvesse diferenças de gênero e uma classificação do desejo e das práticas eróticas, uma sociedade onde os indivíduos não fossem constrangidos a ser heterossexuais. Todavia, ao invés do recurso a um exercício de imaginação, podemos também lançar um olhar à diversidade cultural do passado e do presente, constatando a variedade de formas de experienciação do desejo, das práticas eróticas e do amor.

O terceiro problema está nas conclusões, que, ao demonstrar que o homoerotismo e o bierotismo são desejos e práticas naturais, perpetuam a estrutura binária que segmenta a sexualidade entre os polos natural e antinatural, normal e anormal.

O desejo certamente não é controlável. Não escolhemos por quem nos sentimos atraídos e por quem nos apaixonamos. O indivíduo não é capaz de compelir o próprio desejo a se modificar. Contudo, justamente porque não é controlável e porque ninguém consegue se coagir a sentir atração por este ou aquele gênero, o desejo não está fixado e delimitado, se movimenta, se desloca, flui, imponderável. Ademais, no campo da sexualidade é possível promover experiências com o desejo e fazer descobertas. O indivíduo não consegue se obrigar a desejar, pode, porém, se dispor a uma abertura em relação à diferença, pode ousar experimentar aquilo que a moral sexual interdita. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, se observa, desde a década de 1960, com a revolução feminista e a revolução sexual, um movimento, marcado por ritmos desiguais, de mudança dos costumes sexuais. São essas mudanças que asseguram que um número crescente de pessoas questione o desejo e explore a sexualidade.

Em Canções de amor, nenhuma informação é fornecida a respeito do passado de Ismaël. Durante uma conversa de Julie com a mãe, se descobre que ela nunca tinha sentido atração por uma mulher antes de se envolver com Alice. No caso de Ismaël, se subentende que ele provavelmente jamais se sentira atraído por um homem antes de conhecer Erwann. Entretanto, a angústia e a indecisão de Ismaël não decorrem da circunstância de ter se apaixonado por um homem, mas, simplesmente, do fato de estar, a despeito de sua vontade, apaixonado – e apaixonado por alguém cerca de dez anos mais novo. Ele sofre porque teme amar.

Quando se discute orientação sexual, o desejo geralmente é interpretado de uma maneira redutora, como desejo dirigido a um ou a ambos os gêneros e que se conserva sem alterações no decurso da vida do indivíduo. Ainda que a orientação do desejo não se modifique, não significa que o desejo terá permanecido inalterado. A atração não se realiza somente em relação ao gênero. Quem são os homens que me atraíram em minha vida? O que eles possuem em comum afora o gênero? O que mudou em meu desejo pelo corpo masculino, com o passar do tempo? O que me excita hoje me excitava ontem? O que me excitava ontem continua me excitando hoje?

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… amei ou amarei várias vezes em minha vida. Isso acaso significaria que meu desejo, por especial que seja, estaria vinculado a um tipo? Meu desejo é pois classificável? Haveria, entre todos os seres que amei, um traço comum, um único, por tênue que seja (um nariz, uma pele, um jeito), que me permita dizer: este é meu tipo! [...] o amante passaria a vida inteira procurando “seu tipo”? Em que recanto do corpo adverso devo ler minha verdade?

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 31-32.

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Para minha discussão da identidade sexual e para a posição que defendo, a reflexão anterior acerca do desejo não é muito relevante. Independentemente de o desejo ser estável ou instável, fixo ou nômade, minha conclusão não se altera: ninguém nasce gay, lésbica ou bissexual, as pessoas escolhem ser, optam por ser gays, lésbicas ou bissexuais.

Há uma confusão persistente entre desejo e identidade sexual, entre o psíquico e o social, dimensões que, embora estejam inter-relacionadas, não se confundem. Por exemplo, o desejo de um homem pode ser homo ou bi-orientado, mas sua identidade sexual pode não ser gay ou bissexual, mas heterossexual. Pode ocorrer também que, conquanto um indivíduo declare publicamente ser gay, sua aparência e conduta não correspondam às representações hegemônicas do homem homossexual e ele seja considerado hétero, ainda que não tenha a intenção de que sua identidade sexual seja interpretada em desacordo com a orientação do seu desejo.

Identidade sexual não é desejo. O desejo pode ser explorado, mas não se permite ser controlado. Se não pode direcionar o desejo, se não pode escolher o objeto do desejo, o indivíduo pode se posicionar em face do desejo. Enunciar a identidade sexual, afirmar, verbalmente ou não, “Eu sou gay”, “Eu sou lésbica”, “Eu sou bissexual” significa precisamente fazer uma opção, significa eleger uma identidade desviante em relação àquela estabelecida como padrão, significa decidir não ser heterossexual, significa se posicionar ativamente perante o próprio desejo.

É preciso compreender o ato de assumir-se em toda a radicalidade que possui ou poderia possuir: um momento de ruptura não apenas com uma forma de experienciação do desejo instituída como a única legítima, mas também um momento de ruptura com a ordem social que esta forma funda; de opção por uma forma de vida outra; de reinvindicação do direito à alteridade; de construção e afirmação de uma nova identidade.

No movimento em que se circunscreve o espaço da normalidade, se exclui tudo aquilo que não pode ser considerado normal. Contra aqueles que, no intuito de impedir o reconhecimento de direitos a gays, lésbicas e bissexuais, argumentam que toda sexualidade não-hétero é antinatural, anormal, devemos responder não com a tentativa de demonstrar que a homossexualidade e a bissexualidade também são naturais e normais – constituindo no processo consequentes anormalidades –, mas com a crítica da heterossexualidade, insistindo que também não é natural, tampouco normal, ser hétero, denunciando a violência que preside a uma socialização e a uma educação repressoras e intolerantes, as quais têm o objetivo de transformar crianças em adultos heterossexuais, ao invés de lhes permitir explorar todas as potencialidades do desejo. Gays, lésbicas e bissexuais não têm o direito de ser respeitados porque são normais, têm o direito de ser quem são e de ser como são. Não importa se a especificidade de seus desejos é determinada biologicamente, não importa se as orientações de seus desejos são de nascença, não importa se optaram por sentir atração por pessoas do mesmo gênero ou de ambos os gêneros, o que importa é: os desejos homoerótico e bierótico possuem o mesmo direito de existência e de expressão que o desejo heteroerótico.

Há uma segunda perversidade no entendimento da sexualidade humana como um fenômeno natural. Se não se escolhe ser, se se nasce gay, lésbica ou bissexual, então, caso não se nascesse com este desejo ao invés daquele, caso fosse possível optar pela orientação do desejo, por qual, não sendo um homem ou uma mulher heterossexual, você optaria? Se preferível seria não ser não-heterossexual, resta a impossibilidade de existência de um orgulho gay, lésbico e bissexual – compreendido não como orgulho por um desejo desviante da norma, mas como orgulho pela construção de uma identidade relacionada a esse desejo desviante.

Leisha Hailey e Katherine Moennig, atrizes da série The L word

Da série: “tem que ter”

Publicado: terça-feira, 13 dezembro, 2011 em psicanálise

Não só este livro, mas toda a obra da psicanalista francesa Françoise Dolto são da série: “tem que ter”. Todo psicanalista clínico precisa estudar a fundo a consituição do sujeito, o complexo de édipo, a dinâmica familiar, as identificações e castração. Mesmo - e sobretudo – para os que atendem adultos. Saber como as coisas funcionam em questões de linguagem e posições parentais fazem toda a diferença na escuta psicanalítica.

“Médica psicanalista, Françoise Dolto (1908-1988) é uma das figuras marcantes do movimento psicanalítico na França. Seu pensamento e seus trabalhos renovaram profundamente o olhar dos adultos em relação às crianças.

A partir de 1976, Françoise Dolto passou a fazer um enorme sucesso graças a seu programa diário de rádio na France Inter, Lorsque l?enfant paraît. Ela respondia a cartas de pais com dificuldades para educar os filhos. Sem a pretensão de dar receitas, ela definiu uma atitude: buscar os motivos de cada problema encontrado e responder com a precisão possibilitada pela experiência psicanalítica.”

Encerramento dos grupos de estudo… e retorno

Publicado: quarta-feira, 7 dezembro, 2011 em psicanálise

Esta semana os encontros dos grupo de estudo em Niterói e Ipanema foram encerrados. Na segunda semana de janeiro (09 e 10 de janeiro) retornam os encontros.

No grupo sobre o Seminário 1 – em Niterói – daremos continuidade ao texto Sobre o início do tratamento de Freud e seguiremos com os dois textos restantes dos artigos técnicos para retornarmos ao Seminário 1 de Lacan.

No grupo sobre A prática psicanalítica - em Ipanema - seguiremos com o livro da Maud Mannonni A primeira entrevista em psicanálise.

Para os interessados em participar, entrar em contato flavia@pontolacaniano.com.br ou (21) 9792-8326 / 7870-2323

Jornada da EBP no Maranhão

Publicado: terça-feira, 15 novembro, 2011 em psicanálise

 

 

PSICANÁLISE & SÉTIMA ARTE: Bem me quer, mal me quer

Publicado: segunda-feira, 31 outubro, 2011 em psicanálise

Anorexias e Bulimias: Sintomas contemporâneos

Publicado: terça-feira, 25 outubro, 2011 em psicanálise

Psicanálise e a guerra

Publicado: sexta-feira, 14 outubro, 2011 em psicanálise

O amor cortês entre poltrona e divã

Publicado: quarta-feira, 12 outubro, 2011 em psicanálise

PSICANALISAR

Publicado: domingo, 2 outubro, 2011 em psicanálise

Uma boa dica de livro para quem quer saber mais sobre a interlocução da psicanálise e da mitologia. Na primeira parte do livro há uma excelente exposição do porquê da escolha do mito edipiano para o conceito de complexo de Édipo por Freud, em detrimento de tantos outros mitos similares. A questão do mito individual do neurótico também está bem trabalhado neste livro.

Se persistirem os sintomas, consulte um psicanalista

Publicado: quarta-feira, 28 setembro, 2011 em psicanálise

FANI HISGAIL

Numa sociedade em que o cidadão é monitorado por “olhos eletrônicos”, faróis inteligentes, câmeras digitais, numa constante sensação de paranóia implícita, o resultado não pode ser dos melhores.

 

Quando a vida pessoal se transforma num inferno particular, o mal-estar crônico adquire novas formas sintomáticas e a ansiedade toma conta.

 

Neste momento, o que se recomenda é procurar ajuda profissional. Se for um médico ou psiquiatra, a terapia medicamentosa estará ao alcance das mãos, mas se a opção fosse um psicanalista, a terapia baseada na palavra faria o sujeito falar do seu sofrimento.

 

A prática clínica consiste em fazer o paciente contar sobre quem ele pensa que é e como ele se apresenta para si e para quem o escuta. Como enfatizava Jacques Lacan, o analista age menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é.

 

Significa que este exerce essa função somente quando houver alguém que lhe demande neste lugar. Entre quatro paredes e um divã, o analista se pergunta: O que ele quer de mim? A cura ou o apego ao sintoma? Quem ele pensa que sou, quando diz isso?

 

Em outras palavras, o analista funciona como arrimo das representações inconscientes com as quais o paciente dialoga e lida sem saber ao certo que isso acontece na transferência. A associação livre, regra fundamental do tratamento, opera mudanças quando o discurso faz um novo sentido, redefinindo o modo de escutar a própria história.

 

Quem não deseja falar de si para alguém? Ainda mais, quando as relações são vividas como superficiais, passageiras e vazias. Na era da comunicação móvel, o diálogo não é mais dialógico, é atravessado pelas lentes das tecnologias digitais criando uma profusão de sentidos díspares.

 

Para os mais jovens, as novas mídias e as redes sociais digitais (facebook, twitter, blogs) são fatos consumados: por meio destas tecnologias que a vida rola solta.

 

Alguns analistas acompanham a tendência e postam páginas no facebook, enquanto outros são seguidos no twitter ou nos blogs inteligentes e criativos sobre temas do cotidiano.

 

Estes eventos demonstram que a sociabilidade em rede, onde o virtual e o real são vivenciados como sendo a mesma coisa, chegou para ficar e apresenta dinâmicas nunca antes cogitadas, enquanto a energia se sustentar, pois na falta dá-se o caos.

 

Algumas situações que ocorrem hoje em sessões de análise confirmam como a cultura digital faz parte da produção do inconsciente.

 

Os analisantes se valem do torpedo para mandar mensagens ao psicanalista como: “estou a caminho”, “desculpe, mas não poderei ir”, “podemos mudar a sessão?” ou, quando não desligam o celular e dizem: “desculpe, mas preciso atender” ou “vou desligar o aparelho”.

 

Outro fenômeno interessante é quando o paciente, para ser o mais fiel em seu discurso, lê o que o outro lhe escreveu no celular.

 

Sob esta perspectiva, as linguagens apresentadas sob os diferentes suportes – tablets, smartphones, laptops – compõem um aspecto da transferência de saber que a psicanálise atual deve conhecer e manejar.

 

Segundo a semioticista Lucia Santaella, “estamos vivendo a transição entre um modelo de acesso restrito à informação para um modelo aberto e livre, no qual a informação se espalha por todas as superfícies e ambientes”.

 

Com essa constatação, fica-se mais exposto ao meio; porém, isto poderia prejudicar as análises? Ou, quanto mais o psicanalista parecer como um de nós, menor seria a idealização que gira em torno dele?

 

No passado, havia uma idéia de que o paciente não podia ter acesso à vida privada do analista, ao ponto de se produzir enormes resistências ao tratamento, se algo fosse revelado da sua intimidade.

 

O constrangimento maior era encontrá-lo em ambientes comuns e não saber o que fazer: cumprimentar, ignorar ou se esconder. Naquelas épocas, as análises eram restritas apenas à elite que podia pagar por elas, e os profissionais, todos de formação médica.

 

Tudo isso mudou! Hoje, os psicanalistas são psicólogos em grande maioria, e a psicanálise tornou-se conhecida e mais acessível. Desperta curiosidade, desejo de conhecer e experimentar; é assunto freqüente, tanto na mídia, quanto nas pesquisas acadêmicas.

 

Em público, diversos analistas emitem opiniões, participam de entrevistas e debates sobre temas da própria práxis.

 

Apesar de tantas informações, as pessoas têm dificuldade de diferenciar psicoterapeuta, psicólogo, psicanalista e psiquiatra, ainda que se tenha confiança de serem profissionais que cuidam da “cabeça”, da “mente”, do “subconsciente”, do “psicológico” e do “comportamento”.

 

As pessoas chegam aos consultórios com pesquisas feitas no Google sobre o remédio que estão tomando ou sobre o sintoma favorito, resultando em informações fragmentadas sobre a matéria. Não são poucas as medicadas indiscriminadamente; mais por médicos generalistas do que por psiquiatras.

 

Com notável sucesso de vendas e com o aumento de usuários das “tarjas prestas”, o perfil do consumidor interessou as agências de publicidade, com os remédios apresentados na propaganda como produtos de primeira necessidade.

 

Não é para menos, quem ficou dependente de ansiolíticos e/ou antidepressivos, para poder se livrar deles, precisa tomar outra pílula que anula o efeito da anterior, e assim por diante.

 

É preciso um coquetel de pílulas para um coquetel de sintomas, deixando como rastro o insone que erra nas noites mal dormidas. Quem já passou por isso se reconhece quando alguém diz, ao chegar ao trabalho: “Cara, não agüentei e tomei um Dramin, e agora não consigo parar em pé”.

 

A ausência de sono que afeta tanta gente, seja esta breve ou prolongada, é de tirar do sério. Para muitos, o uso constante das gotas de Rivotríl é mais eficaz do que contar carneirinhos. Pois é: até para nanar, é preciso se dopar!

 

Localizado no sono REM, o sonho é suprimido pela ação da droga, e não há nada menos salutar do que deixar de sonhar, sem lembrar nada para contar. Perde-se uma parte de si, um detalhe do mundo anímico que faz coro com o autoconhecimento e a dimensão subjetiva do desejo.

 

O inconsciente, patrimônio freudiano, nada tem a ver com o sistema nervoso central ou periférico. Mas, quando não podemos evitar que algumas fórmulas de compromisso caduquem com o passar do tempo, inviabilizando a felicidade e a tranqüilidade, talvez seja o momento exato para começar uma análise.

 

Os seres humanos são complicados, melhor dizendo, complexos. Soltos no mundo, desde crianças, temos de responder, como adultos, aos desafios da vida, antes reais do que virtuais. E o fato de sermos falantes, sexuados e mortais, isso não tem remédio. Independente dos meios eletrônicos, a cura pela palavra mantém seu prestígio, com mais de um século de sucesso em cartaz.

 

FANI HISGAIL é psicanalista e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e autora do livro “Pedofilia, Um Estudo Psicanalítico” (Ed. Iluminuras, 2007); hisgail@uol.com.br

FONTE: Jornal Floripa

ESTOU FALANDO COM AS PAREDES – J. Lacan

Publicado: terça-feira, 27 setembro, 2011 em psicanálise

 

Estou falando com as paredes
Conversas na Capela de Sainte-Anne

 
SINOPSE

É indiscutível a importância de Jacques Lacan para a psicanálise. E surpreendente que, 110 anos após o seu nascimento e 30 anos após a sua morte, ainda existam inéditos com transcrições de suas conferências, entrevistas e seminários. É o caso de Estou falando com as paredes, que reúne três palestras ministradas por ele, na virada de 1971 para 1972, aos internos de psiquiatria do Hospital Sainte-Anne, em Paris. Um encontro com o seu próprio passado, já que Lacan também trabalhou nessa instituição na juventude.

No texto, ele avisa: “Estou falando sozinho. É precisamente isto que lhes interessa. Cabe a vocês me interpretar”. Trata-se de uma forma de ressaltar as diferentes interpretações que sua fala podia e ainda pode gerar. Reunidos por Jacques-Alain Miller (seu genro e herdeiro moral de sua obra), os textos desse livro abordam conceitos que estavam sendo desenvolvidos em seu Seminário 19. Um encontro com um mestre da sabedoria, mas de uma sabedoria sem resignação, uma antissabedoria.

XVII JORNADA FREUD LACANIANA DE PSICANÁLISE (Recife – PE)

Publicado: terça-feira, 27 setembro, 2011 em psicanálise

PSICANÁLISE & SÉTIMA ARTE: Volver – Almodóvar

Publicado: segunda-feira, 26 setembro, 2011 em psicanálise

 

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J. Lacan: um analista

Publicado: sábado, 17 setembro, 2011 em psicanálise

Texto raro de Moustapha Safouan extraíso da também rara publicação “Ensaios de psicanálise para o desenvolvimento de uma prática editorial” nº 2 da Bahia. Este texto foi elaborado em ocasião da morte de Jacques Lacan em 1981. Tradução M.P. Silva

“Para o obreiro que segue Freud nos caminhos que ele abriu, as ‘teorias’ do Dr. Jacques Lacan são as consequências rigorosas de algumas constatações cuja evidência se impõe uma vez que sejam feitas.

Primeira constatação: a psicanálise é uma experiência do discurso. Segunda constatação, sem a qual a primeira seria trivial: o sonho (como o sintoma, ou qualquer outra formação do insconsciente) significa.

Ora, a menos que se imagine que o incosnciente sabe os pensamentos que assim se significam (o que retira todo o alcance da descoberta de Freud como conquista de um território até então reservado aos deuses), a segunda constatação é de fato a da autonomia do siginificante em relação a todo sujeito suposto saber.

Esta autonomia só causa espanto a um preconceito sem o qual, aliás, seria fácil perceber que a língua existe antes do sujeito, num discurso onde o sujeito já está preso, do qual recebe suas próprias mensagens e que lhe imprime as identificações primárias das quais seus próprios enunciados se sustentam ao nível da enunciação. A se levar em boa conta este aprisionamento do sujeito na cadeia significante, falar é estar dividido naquilo em relação a que o sujeito se constitui como corte; e o inconsciente é a cadeia onde Isso (Id) se articula no que Freud chama “representações do desejo”.

Sem as explicações que devemos ao Dr. Jacques Lacan da diferença entre o desejo e o pedido e da divisão do sujeito que daí decorre, a psicanálise é um delírio. Para se convencer disso basta que o leitor não prevenido se reporte à exposição, ponderada, aliás, que B. A. Farrell nos faz da ‘teoria psicanalítica’ nos primeiros capítulos de seu recentemente editado, ‘The Standing of Psychoanalysis’ (Oxford, 1981).

As teorias do Dr. Lacan se constituem numa relação à psicanálise, isto é, a sua prática. Que dizer de suas relações aos analistas?

Sabe-se que estão marcadas as cisões e exclusões. Mas o leitor talvez não saiba que os estatutos da IPA (International Psychoanalytic Association) definem a psicanálise em termos cujo ridículo salta aos olhos daqueles mesmos que são filiados a esta honorável casa: ‘o termo de psicanálise designa uma teoria da estrutura e da função da personalidade…’ Não sabe tampouco que o artigo 7 desses mesmo estatutos estipula o seguinte: ‘Os organismos oficiais reconhecidos pela Associação não aceitarão nenhum candidato à formação que não se comprometa a conduzir um tratamento psicanalítico nem a se apresentar como psicanalista enquanto não tiver sido autorizado a fazê-lo pelos comitês ou Institutos de formação responsáveis por sua formação’.

Que toda instituição implica, por definição, numa clivagem entre os ‘clientes’ e o ‘poder’, isso se admite. Mas é preciso que esta clivagem não se torne puro abuso. Ora, aqui o abuso é de princípio: pois como fazer do tornar-se analista um negócio de ‘formação’ (termo que Lacan recusava), um encargo da instituição, sem suprimir desde o começo a opção inicial cujo questionamento constitui justamente a razão de ser da análise?

O abuso de princípio se desdobra num abuso de fato. Pois o que Lacan etiquetou sob o termo de ‘cooptação de sábios’ constitui verdadeiramente o único método que regra o acesso ao poder, quer dizer, ao título de ‘titular’ e, mais além, ao de ‘didático’. Que este abuso se alimenta da obscuridade que reina sobre a análise dita ‘didática’, isto é, aquela em que se efetua o tornar-se analista, isso é agora evidente.

Todo o esforço de legislador de Lacan tinha por objetivo dispor alguns princípios (dos quais o primeiro é aquele segundo o qual o psicanalista não se autoriza senão por si mesmo) que põem cobro a esse abuso.

A aplicação desses princípios não foi apenas um fracasso: o fato é que no interior da ex-Escola Freudiana de Paris, fundada por Jacques Lacan, produziram-se alguns analistas que sabem trabalhar verdadeiramente com o insconsciente.

Em todo caso, a novidade essencial das idéias propostas por Lacan era a esperiência do passe: esperiência destinada a esclarecer a questão do tornar-se analista através de testemunhos que os analistas quisessem dar sobre suas próprias análises, e que se justifica pelo fato, demonstrável, que esta questão da passagem à posição de analista só poderia se esclarecer a posteriori (aprés-coup). Esta experiência destinada em suma a fundar a instituição psicanalítica sobre a estrutura mesma da análise didática, e não sobre a rotina, fracassou. Fracassou porque encerrava dificuldades que os analistas da ex-Escola estavam longe de poder dominar: pois que lhes faltava esta experiência mesma para descobrí-las. Em outros termos, deveu-se esse fracasso a razões de fato: não está votado á repetição; não refuta os princípios promovidos por Lacan; e muito menos prova a excelência das regras que estão em curso no establishment analítico, e cuja miséria, a julgar por seus resultados, é reconhecida pelas personalidades melhor colocadas no seio desse próprio establishment.

Além do mais, o fracasso da ex-Escola nos permite desde já tirar algumas conclusões cujo alcance de longe ultrapassa os percalços desta Escola e entre as quais a seguinte não é a menor: não está no poder de um chefe, qualquer que seja seu estilo e mesmo supondo que ele o queira, fazer com que as relações do resto do grupo à sua pessoa sejam diferentes daqueles descritas por Freud.

E Lacan ‘propriamente dito’? Que dizer? Direi isto, que não poderia dizer de um outro: ouvi da boca de Lacan mais palavras esclarecedoras, salubres e memso salutares do que palavras afáveis ou simplesmente inúteis.

‘É preciso suportar tudo!’ disse ele um dia. Agora que ele já não é, é tempo de o lembrarmos.”

Moustapha Safouan

Paris, setembro de 1981

Lacan…

Publicado: domingo, 11 setembro, 2011 em psicanálise

Lacan

por Gilles Lapouge – publicado no Caderno Cultura do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO em 18/10/1981

Em seus últimos dias de vida, Jacques Lacan era um homem triste, frágil e cansado. Era um velho. Mas a morte jogou-o novamente no primeiro plano,
obrigando a uma reapreciação do uso que fez da linguística para a decifração de Freud. Gilles Lapouge refaz a trajetória desse intelectual e recorda a curta, porém marcante, convivência que teve com LACAN
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Ele não realizava mais seminários. Depois de tanto barulho, tudo em torno dele era silêncio. Não era mais visto nas ruas de Sant Germain des Près. Ou, quando se aventurava fora de casa, nestes últimos meses, não mais era aque¬le personagem suntuoso, o “magnífico”, envolvido em peles, mas sim um homem triste, frágil, cansado, que caminhava lentamente arrastando os pés. Um velho.
Em torno dele os rumores ferviam: discípulos, inimigos e aduladores davam as notícias mais desencontradas sobre Lacan, como um telégrafo que assinalas¬se a posição de um navio perdido no Ártico ou, ao contrário, anunciasse que esse navio descobrira novas terras: “Ele está empenhado em um último combate, o mais perigoso de sua vida, está procu¬rando formalizar a teoria psicanalítica através da matemática, e precisa de solidão”, diziam uns — a que respon¬diam outros: “Ele está liquidado, não pode mais nem falar. Ficou louco, vai ser internado.” E comentavam: “Belo símbolo, o mais célebre dos psicanalistas acabando sua vida em um hospício…”. Ou ainda: “O clown, o bufão, o histrião chegou ao fim. Representou todos os seus números, fez-nos rir durante muito tempo, apaixonou-nos — mas era tudo vento. Seus bolsos agora estão vazios, não há mais pó, dentro deles, para que ele o atire nos nossos olhos. Hoje ele é apenas um acrobata que não consegue mais fazer seu número”.
Eis que de repente o gênio, ou o liquidado, ou o acrobata, morre. E todo mundo se espanta. Sua morte surpreen¬de. E, no entanto, Lacan era um homem muito velho, nascido em 1901, partícipe dos mais ativos do grupo surrealista, com Breton e Aragon, desde 1918. Mas a celebridade só chegou muito tarde, mais precisamente em 1966, quando ele já estava com 65 anos e decidiu-se a publicar seu primeiro livro, composto pelas aulas que dava em seu seminário, o Écrits, editado pelas Editions du Seuil. (Vale um parêntese: este homem que seus inimigos denunciavam como vaido¬so, esperou chegar aos 65 anos para se colocar finalmente sob os refletores da publicidade).
É verdade que, antes de 1966, não é que Lacan fosse um ninguém: ele era conhecido, reverenciado e adulado, em¬bora apenas por um restrito círculo de psicanalistas e filósofos. Os outros, o grande público culto sabia que existia e oficiava em Paris, há 30 anos, um perso¬nagem enigmático, fascinante, uma es¬pécie de xamã — Jacques Lacan — que distribuía o seu saber, um pouco à maneira de Sócrates, apenas por meio da palavra: um saber devastador, cortante, temível, graças ao qual a psicanálise, edulcorada pelas modificações da escola anglo-saxônica, pôde finalmente se transformar naquilo que Freud queria que ela fosse, “uma peste”.
Foi durante esse longo período de segredos, sussurros e inconfidências que se forjou a lenda de Lacan, lenda que, a seguir, a partir de 1966, quando virou moda, transformou-se num verdadeiro câncer. Diga-se, aliás, que o próprio Lacan nada fez, jamais, para impedir sua proliferação. Estranhamente, desse homem, que se tornara uma vedette mundial há 15 anos, a rigor nada se sabia. Enquanto se conhecia tudo sobre Freud, sua família, sua infância, no que dizia respeito a Lacan estava-se na mais completa escuridão. Sabia-se apenas que ele nascera em Paris, de família rica, em 1901. Nos anos 20, jovem psiquiatra brilhante, interessava-se tanto pela poe¬sia como pelas doenças mentais, convi¬vendo ora com os loucos ora com os escritores surrealistas. Loucos ou, de preferência, loucas, já que Lacan tinha uma acentuada predileção pelo discurso delirante das mulheres, fossem elas místicas ou assassinas.

Sua tese inspira Salvador Dali e Genet

Sua tese em medicina, publicada em 1932, era sobre o “caso Aimée” — história das irmãs Papin, que inspirou Genet a escrever As Criadas (Les Bonnes). Uma tese sobre a “paranóia críti¬ca” — e foi Lacan quem forneceu a Salvador Dali sua teoria da paranóia crítica.
Mas, com o correr dos anos, ele se afastou dos surrealistas e mergulhou no trabalho. Em 1936, em Rône, fez um discurso que se tornou célebre nos círcu¬los especializados sobre o Stade du Miroir — o “estágio do espelho” —, no qual já se reconhecem todos os funda¬mentos do imenso edifício que erguerá mais tarde.
Ao mesmo tempo, trabalha muito, seja na prática clínica, seja através de encontros (Lacan conhece bem Georges Bataille, escritor maldito por excelência, reconhecido hoje, com quase meio sécu¬lo de atraso, como o espírito mais vio¬lento da literatura francesa de antes da guerra), seja, enfim, por seguir certos ensinamentos. A partir de 1936, e até 1939, ele assiste aos seminários dados em Paris por um homem igualmente desconhecido do grande público — e, ainda assim, segundo Heidegger, um dos mais poderosos filósofos do seu tempo, Alexandre Kojève.
Kojève, que morreu em maio de 1968, é, sozinho, já toda uma aventura. De origem russa, mas muito atraído pela filosofia alemã, chega a Berlim por volta de 1930. Lá, frequenta os cursos de alguns mestres como Husserl, mas cansa-se rapidamente e ei-lo, então, apátrida, em Paris, em 1936. Propõe a realiza¬ção de um curso sobre Hegel, à época totalmente desconhecido em França. Dará esse curso durante três anos. E seus alunos serão Raymond Aron, Raymond Queneau, Georges Bataille, Maurice Merleau — Ponty, Alexandre Koyré — às vezes até André Breton — e Jacques Lacan. Depois da guerra Kojève aban¬donará a filosofia, tornando-se um dos melhores peritos franceses em economia e finanças, a eminência parda de todos os que tomam decisões em matéria fi¬nanceira, inclusive os administradores de de Gaulle.
Mas voltemos a Lacan. Depois da guerra ele prossegue em seu trabalho, prático e teórico ao mesmo tempo. Rea¬liza um seminário por semana, em Sainte Anne, um hospital psiquiátrico pari¬siense, assistido por médicos, psiquia¬tras, psicanalistas. Só que, com o tempo, sua personalidade torna-se pesada de¬mais para as sapientérrimas instituições psicanalíticas francesas, e em 1964 dá-se a ruptura: Lacan deixa a instituição e funda sua própria escola, a Escola Freu¬diana de Paris.

Seus seminários são assistidos por uma multidão

A partir de 1966, inaugura-se um novo período. Primeiro com a publica¬ção dos Écrits, fazendo com que Lacan seja louvado não só na França como nos meios cultos do mundo inteiro. Segun¬do, seu seminário muda de sede: do hospital de Sainte Anne vai para a Escola Normal Superior — o templo da cultura francesa — local de formação dos mais brilhantes intelectuais pari¬sienses.
Os seminários de Lacan tornam-se, a partir daí, um acontecimento ao mes¬mo tempo intelectual e mundano. São frequentados por uma multidão: jovens filósofos, psicanalistas — e senhoras do tipo chic, as dames cultivées.
Para conseguir lugar sentado é pre¬ciso chegar uma ou duas horas antes. Na assistência reconhecem-se com frequên¬cia nomes como Michel Foucault, Philippe Solers, escritores de vanguarda.
O mestre chega: entra caminhando devagar, instala-se cuidadosamente à sua mesa. Olha a sala vagamente, respi¬ra, suspira — como um atleta se concen¬trando — e começa a falar. Em uma voz inicialmente quase inaudível, aos arran¬cos, aos sussurros, faz paradas súbitas, hesita, gagueja. Com frases subitamente invertidas, leves, aéreas, uma rápida incursão pela filosofia de Hegel mais um jogo de palavras, uma grosseria inomi¬nável e um silêncio interminável — ele dá a impressão de que não conseguirá continuar nunca mais, calou-se para sempre, a platéia aguarda fascinada, corações batendo, respiração presa — e ele recomeça a falar, com doçura, fluência, o discurso sobe, sobe alto, e plana finalmente.
Nem há dúvida que tudo isso era composto, montado, como no teatro. Tudo improvisado, mas nada ao acaso. Tudo artifício — mas qual o orador que não é um homem de artifícios?
E somos forçados a reconhecer que Lacan foi o mais extraordinário mágico da palavra que já nos foi dado escutar.
Ao mesmo tempo, ele continuava a dirigir a Escola Freudiana de Paris, reu¬nindo, agora, tudo o que havia de mais brilhante entre os psicanalistas france¬ses. Mas — e como em toda instituição psicanalítica — os dramas são constan¬tes. Há expulsões, tempestades, brigas, e Lacan provoca, desafia, detestando e desprezando tanto os que o adulam da mais beatífica das maneiras como os que não se lhe submetem.
Aos poucos, em pequenos grupos, os psicanalistas vão saindo da Escola Freudiana, e outros os substituem — mas Lacan vai ficando amargo. Tem o sentimento, cada vez maior, de que sua palavra não é ouvida, que os seus ensinamentos terminam em malogro, e num belo dia de 1980, aos 79 anos de idade, estoura a novidade, chocante: Lacan resolveu dissolver a Escola Freudiana de Paris, o edifício mais importante de sua vida.
Pânico. Agitação. Insultos e denún¬cias. Há quem o ataque, há quem cerre fileiras em torno do mestre. Ele fundará outra instituição, sem dúvida — mas a partir desse mo¬mento começa como que a apagar-se, deixa de ser visto, fala pouco, não reina mais, no interior da psicanálise, a não ser como uma ausência devorante, um vazio em torno do qual o ar turbilhona alucinadamente.
Depois, a morte.
Esta é a carreira visível de um homem que faz parte da lenda parisiense desde 1968. Uma lenda, diríamos, histé¬rica. Em que ele é vítima dos piores rumores. Lacan teria dado de presente um chicote de ouro à atriz Jeanne Moureau. Teria insultado o embaixador francês em Roma. Teria… teria… Só que nenhum dos rumores se confirma.
A única coisa certa que ele tem, realmente, caprichos de grande coquette, de “diva”. Gosta, realmente, do perfume de escândalo, de provocação, que o acompanha sempre. É certo tam¬bém que ele exige que os seus pacientes, seus analisandos, lhe paguem regiamen¬te, preços exorbitantes, por sessões que, dizem, são cada vez mais curtas — às vezes de apenas alguns minutos — em que, com frequência, ele não diz uma só palavra.
Circulam em Paris histórias sobre seu mau caráter, sua fatuidade, vaidade, orgulho, estranhas maneiras. Eu o co¬nheci: e nele vi, apenas, sempre um homem muito simples, um homem que lutava, com uma coragem assombrosa, contra o enigma da psicanálise, um trabalhador encarniçado.
Conheci-o em 1966, quando publi¬cou seus Écrits. Pedira-lhe uma entrevis¬ta para uma publicação semanal, Le Figaro Littéraire. Inicialmente ele me submeteu, por telefone, a uma espécie de pequeno exame, para ver se eu tinha algumas noções, ainda que vagas, sobre psicanálise. Ao que parece passei no exame, e ele me marcou encontro para uma das noites seguintes, às dez horas — estranha hora.
Chego, e encontro um personagem muito amável, muito cortês. Oferece-me charutos e whisky, e pede-me que lhe faça minhas perguntas. Ouve atenta¬mente, a cabeça inclinada. Suspira pro¬fundamente, e começa a responder. Uti¬lizando a linguagem mais simples, mais clara do mundo, nada tendo em comum com a prosa preciosa, à Ia Mallarmé, erudita, dos Écrits.
Fala durante muito tempo. Já são quatro horas da manhã quando ele me acompanha até a porta do seu prédio. Revi-o oito dias mais tarde, para alguns esclarecimentos. De noite, novamente, e por volta da meia-noite ele me propôs que fôssemos a um restaurante, para jantar.
Encontrei-o mais duas vezes, e ja¬mais sua gentileza, seu respeito pelo outro foram desmentidos. Mas ele tinha realmente manias, destinadas sem dúvi¬da a alimentar a lenda. Uma manhã, por exemplo, às seis horas, meu telefone tocou. E era o doutor Lacan, me contan¬do uma história sem grande interesse, e absolutamente não urgente.
Quanto às suas teorias, seria uma impertinência tentar resumi-las.
A teoria lacaniana foi elaborada ao longo de 30 ou 40 anos de prática clínica e de reflexão teórica sobre essa prática, complicada ao máximo, sofisti¬cada ao último grau, fazendo referência a toda a cultura do mundo, desde a História e a mitologia, a poesia e a pintura, até Hegel, Kant ou Sade e às formas mais áridas da matemática mo¬derna, sem esquecer a etnologia, a lin¬guística, e todos os recursos daquilo a que chamamos retórica.
Assim, vamos nos limitar a indicar, de um lado, o que essa teoria não é, e, de outro, qual o eixo, a espinha dorsal dessa teoria. Primeiro poderíamos ser levados a acreditar que um homem tão cheio de som e fúria, provocador, icono¬clasta, tivesse virado as costas ao “pai” fundador, a Freud. Pois nada disso: Lacan nunca mudou. O que ele preten¬deu foi um “retorno a Freud”. Empenhou-se em sua leitura, com cuidados ciumentos, meticulosos, sem em mo¬mento algum traí-lo — ou, pelo menos, sem ter o sentimento de traí-lo.
Poderíamos compará-lo, se quisés¬semos, a Lutero, o fundador do protestantismo, que quis efetuar um “retorno aos Evangelhos”, libertando-os da ferru¬gem que lhes fora acrescentada pela Igreja de Roma. Assim fazendo, Lacan visava especialmente dois desvios do discurso freudiano: de uma parte, o desvio pela hermenêutica religiosa, efe¬tuado por Jung e seus discípulos, e, de outra, o esmaecimento sofrido pela psi¬canálise, ao atravessar o Atlântico, reduzindo-se de ano em ano, cada vez mais a uma simples psicoterapia, e ao esforço de meramente “normalizar” os doentes, tornando-os aptos a ocupar seu lugar na sociedade, a funcionar, a produzir.
Lacan estava tão longe dessas práti¬cas que sequer ousava dizer que o tratamento psicanalítico destinava-se a curar. O tratamento, para ele, destinava-se muito mais a fazer com que o paciente “reentrasse em sua própria casa”, ou seja, restabelecesse as comunicações cor¬tadas entre o consciente e o inconscien¬te, sem nem por isso ser obrigado a descobrir, forçosamente, a “serenidade” ou a “felicidade”, palavras que não faziam parte do seu vocabulário.
A palavra-chave para ele era “ver¬dade”, ainda que essa verdade fosse devastadora, cáustica, impiedosa.
Segundo erro a não cometer: fazer de Lacan um filósofo. Em 1966 e nos anos seguintes, no auge da glória, ele tornou-se um mago, um mestre-pensador — e houve quem quisesse içá-lo às alturas dos antigos mestres, particularmente ao lugar de Sartre, exigindo-lhe portanto uma filosofia, uma metafísica. Tentação de que ele se defendeu com horror. Clínico e teórico, sim. Filósofo nunca.
Ele é um homem de ciência, dessa ciência que é, segundo ele, a psicanálise de Freud — e é precisamente o estatuto científico dessa psicanálise que ele quer estabelecer em sua obra. Não há dú¬vida que o seu discurso é sobrecar¬regado de filosofia, e que inspira os filósofos — mas este é um efeito secundário, indireto, pelo qual Lacan se recusa definitivamente a se interessar.
Portanto, a idéia é conferir à psicanálise o estatuto de ciência. E é aqui que intervém o uso da linguística — que também passou a ser ciência, desde os trabalhos de Saussure — uma ciência-serva, se assim quisermos, fiadora e tela de fundo da ciência psicanalítica. E como é que a linguística entra nisso?
Lacan volta a Freud, mas lê-o com óculos que não existiam no seu tempo, os óculos da linguística, fundada por Saussure precisamente com base em Freud. Para Lacan, Freud não descobriu o inconsciente: os homens já o haviam reconhecido há centenas de anos. Basta pensar nas pítias, na mitologia, em Hamlet, Leonardo da Vinci, Sófocles. Os homens sabiam que por baixo do pensamento coerente, “acordado”, es¬tendem-se imensos arquipélagos sub¬mersos, censurados, que formam o in¬consciente. Donde, Freud não descobriu o inconsciente: aprendeu somente a escutá-lo, a decifrá-lo.
Lacan costumava fazer uma bela comparação: antes que Champollion, no começo do século XIX, decifrasse os hieróglifos egípcios, os hieróglifos já estavam lá há muito tempo. E falavam — só que ninguém entendia o que eles diziam. Champollion encontrou a cha¬ve, e, de súbito, toda a antiguidade egípcia nos foi devolvida.
Freud fez o mesmo, e a comparação vai ain¬da mais longe, já que o seu golpe de gênio segue exatamente o mesmo método do golpe de gênio de Champollion. Antiga¬mente, quando se captu¬rava uma palavra do in¬consciente, uma ima¬gem de um sonho, por exemplo, procurava-se compreender o sentido daquela palavra, da-quela imagem. Da mesma forma, antes de Champollion, procurava-se compreender o sentido isolado de cada desenho de uma tábula egípcia— um íbis, por exemplo, ou uma balança — e não se chegava a parte alguma. Champollion teve a ideia de interpretar a série dos símbolos, sua sequência, seu inter-relacionamento, sua ordem, por ter compreendi¬do que um símbolo nada quer dizer se retirado da cadeia significante. Para traduzir uma língua desconhecida ele usou não um di¬cionário, mas uma gramática e uma sintaxe. Freud fez o mesmo: e trabalhou sobre todo o sonho, ou todo o discurso do incons¬ciente, observando como ca¬da uma das suas diferen¬tes secções, suas imagens sucessivas, se organizam umas em relação às outras, se entrecruzam. Em suma: ele examina não mais o discurso palavra por palavra, mas em sua estrutura completa. E tra¬duz esse discurso como se traduz um texto do grego ou do latim, reencon¬trando sua sintaxe e sua gramática.
Assim fazendo, Freud descobriu que esse discurso do inconsciente, longe de ser desorganizado, incoerente, anár¬quico, obedecia a leis rigorosas, estáveis, permanentes — leis precisamente iguais às da linguagem consciente, só que “disfarçadas” pela censura. O que nos leva a pensar na censura no domínio político.
Um regime tirânico decreta a censura. Que se passa então?
Todo o discurso do país é cortado, proibido. Ainda assim, não se interromperá, não parará. O país continua a falar, mas clandestinamente, como o inconsciente, apesar da tirania do cons¬ciente, que continua a falar “sob” o discurso oficial (o discurso consciente, no caso do indivíduo, o discurso do senhor, no caso da ditadura). E fala de modo que o tirano não o entenda, disfarçando-o.
Um jornalista, por exemplo, em lugar de denunciar claramente esta ou aquela prática, vai fazê-lo por meio de um símbolo complexo. O mesmo para o indivíduo: um desejo sexual me ator¬menta, por exemplo, mas minha forma¬ção, minha educação, impedem-me de falar nele, e até de reconhecê-lo. Assim, o desejo não desaparece, mas vai expres¬sar-se em linguagem camuflada, clan¬destina, incompreensível.
A psicanálise é portanto a arte de descobrir as leis que esse desejo utiliza para se manifestar sem se trair — leis que são as mesmas que as da nossa linguagem quando acordados, com sua gramática e sua sintaxe, mas torcidas, disfarçadas.
Lacan dá muitos exemplos desse decifrar-se, mostrando, por exemplo, que formações bem conhecidas do so¬nho, a que chamamos “condensação”, seguem exatamente as mesmas regras das formas de retórica, a metonímia, a metáfora, etc. Assim, pela primeira vez, com Freud, os hieróglifos do inconscien¬te podem ser lidos. Pela primeira vez, o formidável Egito antigo que cada um de nós guarda no inconsciente torna-se per¬ceptível, pode ser ouvido, e conseguimos pôr-nos em comunicação com esse terri¬tório submerso.
A tudo isso faz-se uma objeção: isto é Lacan. Não pode ser Freud, já que as leis da linguística que Lacan aplica para decifrar o inconsciente eram ignoradas na época de Freud. “Prova — retruca Lacan — da genialidade de Freud. A linguística ainda nem existia e ele já forjara um instrumento de decodificação que só podia funcionar com a lin¬guística! Profético, Freud estava muito à frente de todos os outros — mas foi preciso a linguística para que pudésse¬mos apreciar e utilizar plenamente a revolução copérnica que ele realizou.” E Lacan costumava acrescentar ainda que todos os textos de Freud, se lidos com atenção, mostrariam um combate áspe¬ro, violento, com a linguagem.
O que é rigorosamente verdade. Basta citar, por exemplo, a importância dada por Freud ao calembur (refúgio privilegiado do discurso do inconscien¬te), ao trocadilho, ao lapso, ao ato falho, etc. E, enfim, o que é realmente a cura psicanalítica de Freud? Uma cura da linguagem pela linguagem. O paciente fala. O psicanalista escuta, decifra esta ou aquela palavra. Decifra o discurso. Do começo ao fim, a psicanálise é ques¬tão de linguagem.
Claro que esse nosso resumo é indigente. Reduz e empobrece terrivel¬mente o texto de Lacan — mas não nos é possível ir além disso. Teríamos de in¬troduzir aqui muitas outras noções: o estágio do espelho, as três instâncias do real, do simbólico e do imaginário, o objeto pequeno, o outro. Mas tudo isso é de um tal refinamento, de uma com¬plexidade tão vertiginosa, que não é possível incluí-lo em um artigo de jor-nal. Falta só afirmar que tudo se deriva dessa constatação original: “O inconsciente é estruturado como uma lin¬guagem”.
A psicanálise permite traduzir o discurso do inconsciente, para rearticular o indivíduo sobre essa radical dele mesmo que é inconsciente, a fim de reintegrar sua própria verdade.
Esta palavra — “verdade” — retor¬na de maneira obsessiva, em Lacan. O que até surpreende. Como se houvesse uma verdade, como se, admitindo que a verdade existe, o espírito do homem pudesse capturá-la, subjugá-la. Mas a força de Lacan consiste exatamente em fazer, de uma impossibilidade, um for¬midável trampolim teórico para ir mais longe. Assim com a noção de “verdade”, com a qual ele se exibe “como um pavão”, segundo os seus inimigos, ou “como um homem em busca do Santo Graal”, segundo os admiradores.


0 homem é um ser fabricado pela linguagem

Há três anos, aproximadamente, a televisão francesa, não sem coragem, emprestou suas câmeras a Lacan. E vimo-lo, então, na pequena tela. Suas primeiras palavras foram: “Eu digo sem¬pre a verdade”. Os espectadores prende¬ram a respiração. Quem era, afinal, aquele pretensioso, aquele homem que avançava, tocha flamante na mão, usan¬do a linguagem de um profeta, ou de um deus?
“Eu sou a verdade.” E, depois de um silêncio, “mas não toda a verdade, porque não é possível dizê-la toda. Faltam-nos as palavras. E é exatamente por causa dessa impossibilidade que a verda¬de se torna verdadeira”.
Perfeito: em três frases cintilantes, ele disse tudo: que o homem é um ser da linguagem, um ser fabricado pela lin¬guagem e fabricante de linguagem, mas que a linguagem é impotente para reve¬lar a totalidade do mundo, e que é desta falha, deste abismo que separa as pala¬vras e as coisas, que o real emerge. A isso acrescentaremos que essa tentativa sacode os fundamentos de toda a filoso¬fia, portanto do ser, do Ocidente.

Formalizar o inconsciente segundo a matemática

Freud, repetido ou explicado por Lacan, opera um putsch filosófico, um golpe de Estado. “Descentraliza” o “eu” cartesiano. Abole a fórmula real, funda¬dora do Ocidente, o “Penso, logo exis¬to”, de Descartes. Com Descartes o homem só é pensando, e pensa a partir do centro de si mesmo. Com Lacan e Freud tudo isso é dilapidado, tudo é jogado para o alto. Não podemos mais dizer hoje em dia “Penso, logo existo”, mas, mais dramaticamente — e aqui deixamos o texto em francês —, “Je pense où je ne suis pas, je suis où je ne pense pas”, frase em que a palavra où, com seu acento grave, passa a significar advérbio de lugar — onde — e não a alternativa ou, do famoso “Ser ou não ser”. O que traduz, em outros termos, a ruptura, o corte, a separação que corta cada um de nós entre essas duas instân¬cias, radicalmente estrangeiras uma a outra, mas influenciando-se mutuamen¬te, que são o “consciente” e o “incons¬ciente”.
E percebemos assim as convergên¬cias, os encontros passíveis de serem anotados entre o pensamento de Freud, Lacan e o de outros mestres das ciên¬cias humanas, Lévi-Strauss ou Michel Foucault, que também anunciam o fim do homem, a morte do homem — pelo menos no mundo ocidental —, do “eu” cartesiano.
Mas não prolonguemos demasiada¬mente as considerações filosóficas que o próprio Lacan negligencia, ainda que elas alimentem há dez anos as mais vivas reflexões francesas. Voltemos, antes, a essa existência em parte clownesca e infatuada, de outra. E é a única que nos interessa reter, genial, patética e heróica. Pois que, se a genialidade de Lacan é desde já irreversível, se ele já pertence à história da cultura, ainda que só por causa das rupturas, das descobertas que o seu discurso obscuro e soberbo causou nas gerações de homens de 20 a 40 anos, foi ao preço de um trabalho desespera¬do, de um combate mortal que Lacan o fez.
Já quase no fim da vida, esse incorrigível viajante quis ir ainda mais longe em sua formalização. O modelo linguís¬tico não mais lhe parecia suficientemen¬te sutil ou rigoroso para dar conta dos meandros do discurso do inconsciente, e ele passou a formalizar o inconsciente segundo o modelo matemático. Lacan já estava velho, e sobretudo cansado. Seus seminários eram dados cada vez com mais dificuldade. Continuavam sendo seguidos por um núcleo de fiéis, mas nada que se comparasse às multidões extasiadas dos anos 70.
Não assisti a nenhum deles, mas ouvi repercussões. Agora, Lacan subia ao estrado, desenhava em um quadro-negro gráficos, fórmulas matemáticas de uma aridez cada vez mais austera. Já não falava quase, ficava por muito tem¬po parado diante dos seus gráficos como que paralisado ou fulminado, tentando avançar, compreender as suas próprias fórmulas, e às vezes — nem sempre — o discurso renascia, soberbo como antes — e depois ele tornava a se calar.
Às vezes, segundo me disseram, durante toda uma longa sessão sequer uma pala-vra era dita.
Além disso, ele levava sempre nos bolsos cordões de cores diferentes, com os quais montava modelos matemáticos que deveriam reproduzir a topologia do discurso do inconsciente. Mas também com os cordões ele se embaraçava — e uma vez, até, segundo me contou um dos seus mais fiéis adeptos, em um dos últimos seminários que realizou, até com os gráficos ele se atrapalhou, não sabia mais o que pretendia, e lá ficou, mudo, vencido, desfeito. A reação dos seus alunos, espontânea, comovida, foi assegurar-lhe: “Nós o amamos, o ama¬mos muito”.
Lacan: talvez, realmente, um ho¬mem cheio de traços contestáveis. De um orgulho provavelmente exagerado, como sua violência e seu gosto pelas disputas — mas o gênio é sempre exi¬gente, o gênio é um devorador. E, de qualquer modo, o que desejaríamos guardar disso tudo, no momento em que a sua imensa voz, às vezes balbuciante, se calou para sempre, é a imagem de um velho frágil, que perdeu toda a soberba, parado diante de um quadro-negro com seus cordões coloridos, como uma crian¬ça que esqueceu a resposta. Um velho imperador, não decaído, porque nin-guém foi mais longe do que ele — mas vencido pelo seu próprio gênio, a quem tudo o que os alunos encontraram para dizer, no fim, foi que o amavam.

FONTE: site www.psicanaliselacaniana.com

Já que Lacan morreu…

Publicado: domingo, 11 setembro, 2011 em psicanálise

Jorge Forbes

Jacques Lacan morreu em setembro, como Freud e também Melanie Klein. Será que os grandes psicanalistas ficam mais frágeis nesse mês, depois de brigar com as bruxas de agosto?

Há exatos dez anos Jacques Lacan morreu. Ele não foi um discípulo de Freud como os outros – até, diríamos, foi contra os outros. Em seu retorno a Freud, à virulência da descoberta psicanalítica, ressaltou os impasses entre o homem e a civilização, entre o desejo e as satisfações possíveis, entre a palavra que se quer e a que se tem. Não deu resposta acomodativa a esses impasses como seus predecessores, mas arregaçou as mangas, encarou o problema e, num decidido vamos lá, demonstrou que o conflito entre o homem e a cultura não é acidente de percurso, mas de sua natureza. E isso não é mau, ou melhor, não deve ser mau para aqueles que toleram na receita da vida uma pitada de incerteza que muda o gosto das saladas  de garantia.

“ Decidir-se na incerteza” pode ser um bom lema para uma bandeira psicanalítica.

Lacan, como ninguém, soube ser bandeirante do inconsciente. Sem cavalos, sem botas, sem gibão, mesmo sem tropa, teve como arma sua inquietação, que chamou de ética do desejo, e como instrumentos, seu silêncio atrás do divã e sua fala diante de um grande público.

Um homem contemporâneo: para provar o arbitrário da língua, partiu da Lingüística. Para provar que o inconsciente pensa, usou Matemática e Lógica. Para provar que herdamos, além de genes, também gostos, maneiras, tradições, recorreu à Antropologia e, para o grande debate sobre o homem e o mundo, teve longas conversas com Kant, Hegel, Heidegger, sem esquecer os antigos. Luzes e mais luzes na Psicanálise.

Se Psicanálise é ciência, ainda se discute, mas com Lacan, certamente, não é ciência oculta. Ele teve a ousadia de derrubar duas resistentes barricadas das cartilhas analíticas: seus seminários eram abertos, sua prática clínica desritualizada. Provou que a famosa transferência – as emoções deslocadas que o analisando sente por seu analista – não se extinguia ao ver o paciente seu analista em público, trabalhando, pensando, emitindo opiniões, com raiva, com carinho. Quebrando os rituais públicos e privados colocou na mão dos psicanalistas a responsabilidade de dirigir uma análise nesse mundo , e não no mundo perfumado e asséptico do britânico setting. Ele pôs a análise em pé, atenta às diferenças e não às igualdades. Estendeu as fronteiras da clínica, pôde escutar onde os padrões ensurdeciam, casos rebeldes passaram a ser casos tratados.

Na formação dos analistas também inovou. Quem é analista? A régua que mede o engenheiro, o médico, o advogado e cia. não serve para o analista, como também não é válido o terço da fé que qualifica os religiosos. O analista se mede na prova que oferece de ser capaz de levar o saber ao seu limite, ao impossível; o amor à diferença radical; de impedir que a norma pulverize os detalhes do desejo. E deve fazer tudo isso sem ficar à margem, sem gozar da marginalidade (no duplo sentido). Nem a Academia nem a Igreja servem ao psicanalista. Sua instituição é a práxis cotidiana que se mede só por sua eficácia transformadora, de um a um. Cabe às escolas psicanalíticas saber recolher, transmitir e garantir essas experiências do particular.

Marshall McLuhan, o grande teórico das comunicações, definiu que “o meio é a mensagem” – mais importante que o que temos a dizer passou a ser o veículo utilizado. Falar no rádio como o rádio quer, aparecer na televisão como a televisão quer, escrever no jornal como o jornal quer. Lacan resolveu seguir a lição ao pé da letra e, ao fazê-lo, mostrou o absurdo que se esconde em toda ordem unida. Solapou o meio em sua própria mensagem. Foi à televisão e chamou o seu programa de Televisão, foi ao rádio e publicou a entrevista sob o nome de Radiofonia, escreveu um grande livro e intitulou-o, simplesmente, Escritos. Seus 26 seminários, um para cada ano de seu ensino, chamam-se Seminários. Sufocado pela armadura massificante da mídia, soube detectar os respiros da criatividade. O meio ainda não é a mensagem toda, os atores são fundamentais. Por isso se comemoram os dez anos da morte de Jacques Lacan, ele é fundamental.

A Psicanálise não sobreviveria sem os grandes analistas. Essa afirmação pode chocar o homem da ciência que pretende que a  fórmula prescinda do autor. Pode falsamente alegrar o intuitivo que quer fazer de sua paixão uma verdade universal. Não, nem uma coisa nem outra.

Será analista, quem souber se equilibrar na ética do desejo. Se cair para um lado fará o sujeito desaparecer no discurso da ciência, se cair para o outro lado fará seu enaltecimento místico. Aí está uma difícil virtude: equilibrar-se nesse meio.  

Já que Lacan morreu, para ser Outro enfim, como uma vez comentou, resta aos analistas fazer dessa memória uma história diferente e demonstrar o lugar da Psicanálise neste nosso mundo.  Há muito para ser feito. Estejamos atentos e que haja talento e decisão.

(artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 24 setembro de 1991, p. 2)

FONTE: site www.jorgeforbes.com.br

Jacques Lacan, guru ou mestre?

Publicado: domingo, 11 setembro, 2011 em psicanálise

No dia 9 de setembro de 1981, morria o analista francês, um personagem idolatrado e controverso. Eis o que resta do seu pensamento.

A análise é do psicanalista e ensaísta italiano Massimo Recalcati, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 08-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando foi anunciada a morte de Lacan, no dia 9 setembro de 1981, o seu nome era para mim um nome entre outros, associado com a época do estruturalismo francês (Lévi-Strauss, Althusser, Barthes, Foucault). Só mais tarde encontrei o seu texto, primeiros os Escritos, publicados em 1966, e em seguida a série dos Seminários que ocorreram em Paris por 26 anos, ininterruptamente de 1953 a 1979. Os Escritos me deram a impressão de um muro insuperável e ilegível. Mas o suficiente para provocar o amor por Lacan, o “a-mur”, como o Mestre diria. Porque no amor está sempre em jogo um obstáculo, uma distância irrecuperável, um afastamento, um muro, justamente.

Entendi só com o tempo que seu estilo aforismático, o andamento intencionalmente tortuoso da sua palavra, não era um vício, mas expressa um princípio de método decisivo: refletir a tortuosidade própria do objeto do qual ela falava, a imprevisibilidade do e a indecifrabilidade de um sonho, de um sintoma ou de um lapso, imitar a própria voz do inconsciente.

Eu sabia que havia a sua voz, uma voz capaz de reunir as multidões e não só analistas. A voz de Lacan teve, nos anos 1960-1970, o caráter de um evento. Mundano? Xamânico? Intelectual? É certo que ele provocava transferência, gerava paixões, animava desejos. Eu falo com os muros? Perguntava-se de tempos em tempos, como quando contou aos seus alunos que tinha sonhado que se encontrava em uma sala de aula deserta.

Solidão de Lacan. Estranho paradoxo. Nenhum psicanalista depois de Freud foi mais popular do que ele e nenhum levou sobre as suas costas o peso de uma solidão tão profunda. Lacan rejeitado, difamado, excomungado, afastado da Associação Internacional de Psicanálise depois de um processo farsesco. A acusação: tem muitos alunos, muitas análises didáticas, muita transferência! A sua inovação da técnica psicanalítica – as chamadas sessões de tempo variável – foi considerada uma verdadeira heresia.

Lacan, o excêntrico. Os seus escritos, a sua palavra, a sua voz, os seus modos, o seu estilo dândi, os seus cigarros retorcidos, os seus papillons e as suas camisas mao, os seus vícios de colecionador, a sua libertinagem. Lacan louco, envaidecido de si mesmo, Lacan-Narciso, Lacan-Guru. Dizem que ele não tolerava parar em semáforos. Ele que teorizou paulinamente o nexo fundamental que liga a Lei (da castração) ao desejo, não sabia suportar nem mesmo os limites definidos pelas regras da estrada…

Como contrasta esse retrato, sobretudo para os analistas lacanianos que, como eu, jamais o conheceram, mas só o leram e o estudaram, com o rigor do seu ensinamento! Foi um dos psiquiatra mais brilhantes da sua geração, desenvolveu uma teoria estrutural da psicose, repensou a doutrina analítica nos seus fundamentos, preservou a ideia freudiana da psicanálise como prática do palavra e, consequentemente, recusou o obscurantismo de um inconsciente como pura irracionalidade, como instintividade animal, como subterrâneo das emoções, mas também aquela psicologia do Eu que parecia querer reabilitar uma versão conformista e cognitivista da personalidade, esquecendo que, como havia defendido o pai da psicanálise, “o Eu não é senhor nem mesmo em sua própria casa”.

Ele tornou Freud novamente vivo, removeu-lhe de cima o pó da ortodoxia escolar e das bibliotecas, injetou-lhe na cultura mais avançada do século XX, libertou-o das correntes de uma concepção processual e instintiva da subjetividade. A sua liberdade de pensamento jamais deu origem a nenhum ecletismo e a nenhum empirismo: no campo da psicanálise, ele repetia, pode-se dizer tudo o que se quiser, mas não fazer tudo o que quiser. Praticou assiduamente e com sucesso a psicanálise por mais de meio século. A sua obra está hoje, talvez, menos na moda, mas sempre mais estudada em todo o mundo (até mesmo pelos analistas freudianos da International Psychoanalytical Association) com o respeito devido a um clássico. Se, porém, considerarmos como “clássico” não uma obra morta, mas, como sugeria Italo Calvino, uma obra de tal forma ampla que é inesgotável.

É possível que, neste novo século, em que um exército aguerrido (neurociências, cognitivistas, comportamentalistas, psiquiatria organicista) gostaria de sancionar o fim sem retorno da psicanálise, a herança de Lacan não seja mais só uma luta fratricida entre “lacanianos” que invocam o privilégio do amor pelo seu Mestre, mas coincida com o próprio futuro da psicanálise. Lacan como patrimônio da identidade freudiana da psicanálise.

Por que as pessoas iam em massa para escutá-lo? Porque buscavam nele um saber sobre as coisas do amor e sobre a desarmonia fundamental que caracteriza a relação entre os sexos. Como podemos nos sair diante dessa desarmonia, como podemos suprir, diria Lacan, a inexistência da relação sexual? Por trás do teórico ultra-humanista do inconsciente estruturado como uma linguagem, sempre devemos ver em ação o Lacan neoexistencialista que interroga a diferença sexual e o mistério insolúvel do desejo humano.

Inimigo da contratransferência, Lacan assimilava o analista à figura do morto no jogo de bridge. Mas os adversários da contratransferência e da implicação da subjetividade e da humanidade do analista no processo do tratamento, como foram os analistas lacanianos, muitas vezes fizeram da transferência um uso selvagem e eticamente sem critérios. A impassibilidade do analista deu origem a um poder e a uma idealização sem fronteiras.

A palavra singularíssima do Mestre gerou imitações grosseiras e farsescas e um jargão sectário muitas vezes incompreensível, mesmo para aqueles que o utilizavam (ou o utilizam), que contribuiu muito para isolar a comunidade lacaniana do resto da comunidade psicanalítica. Lacan havia previsto esse risco: “Façam como eu, não me imitem”, repetia aos seus alunos idólatras.

Teórico muito lúcido da clínica, analista criativo, leitor de Freud insuperável, intelectual sem conformismos teóricos e ávido por saber, intérprete visionário do seu tempo, Lacan amava os seus alunos, embora, em uma conferência dirigida aos católicos, defendeu que calar o amor era a única condição para conduzir uma análise até o fim, para separar o analisante do seu analista. Talvez, por essa razão, nos últimos tempos do seu ensino, a voz de Lacan deixou de falar.

Idoso e fascinado pela topologia, limita-se a fazer nós borromeus diante de uma plateia sempre mais numerosa, seduzida e aterrorizada pelo Maître. Pouco antes de morrer, decidiu dissolver a sua criatura mais preciosa, aquela Ecole Freudienne de Paris, que, “assim como eu sempre fui”, Lacan fundou em 1964, no dia seguinte da sua expulsão da IPA. Silêncio e dissolução; não eram gestos de teatro.

No ponto mais extrema da sua vida, se deu conta, talvez, de não ter silenciado o amor suficientemente. Dissolveu, então, aquela cola (école) que havia se tornado a sua Escola, também para libertar finalmente os seus alunos do peso incômodo do seu desejo. Lacan prisioneiro do amor que ele havia desencadeado, Lacan pedra rejeitada, resto, objeto pequeno (a), objeto perdido. Lacan, “mon a-mur”.

FONTE: site www.ihu.usinos.br

Em comemoração aos 30 anos de morte de Jacques Lacan, dicas de livros sobre o psicanalista para você ter na sua estante

Jacques Lacan: uma biografia intelectual

Oscar Cesarotto

Lacan

Alain Vanier

Como ler Lacan

Slavoj Zizek

Lacan com Derrida

René Major

Jacque Lacan

Elisabeth Roudinesco

Trabalhando com Lacan: na análise, na supervisão, nos seminários

org. Alain Didier-Weill e Moustapha Safouan

Quartier Lacan: testemunhos sobre Jacques Lacan

org. Alain Didier-Weill

Jacques Lacan

Gilber Diatkine

Lacan

Vladimir Safatle

Para conhecer um pouco mais sobre os livros e adquiri-los, basta clicar em na capa desejada. BOA LEITURA!

Psicanálise & Sétima arte

Publicado: terça-feira, 6 setembro, 2011 em psicanálise

INSCRIÇÕES ABERTAS

 

Grupo de estudo

Publicado: terça-feira, 6 setembro, 2011 em psicanálise

Esgotaram as vagas para o grupo de estudo em Ipanema, mas para os que seguem interessados ainda há vagas para o grupo de Niterói.

contatos: (21) 9792-8326 / 7870-2323 / flavia@pontolacaniano.com.br

PSICANÁLISE & SÉTIMA ARTE: O quarto do filho

Publicado: quarta-feira, 31 agosto, 2011 em psicanálise

JORNADA FREUD LACANIANA em Recife – PE

Publicado: segunda-feira, 29 agosto, 2011 em psicanálise

CONLAPSA – nesta semana

Publicado: sábado, 27 agosto, 2011 em psicanálise