Agradeço aos comentários e e-mails que recebi sobre o último post. Venho acrescentar algo.
Não é que a Psicanálise não se submeta à leis, ela se submete, mas essas leis são [re]calcadas no inconsciente que é subversivo por natureza. A descoberta freudiana é conhecida como uma das feridas narcísicas. Quando Freud declara que o homem não é senhor da sua própria casa, ele coloca em cena o sujeito do inconsciente, ou seja, do desejo. Desejo esse que se difere da demanda consciente do ‘quero isso, não quero aquilo‘. Lacan já dizia que o querer não é homogêneo ao desejo. Essa diferença radical impossibilita que o analista case a condução de uma análise com as intervenções de uma outra prática. Está para além da lei de ‘ser proibido‘, mas põe em jogo uma incompatibilidade.
Por exemplo: se o inconsciente é atemporal e não cessa de insistir, não há como estabelecer um tempo no que tange a um tratamento breve ou sessões de minutos pré-determinados. Se a religião lida com leis que envolve perdão, dar para receber, fazer o bem sem olhar a quem, como chegar ao mais íntimo e perverso do sujeito que carrega consigo o ódio, a vingança, o rancor e lida com a frustração constante de se dar conta de que não há troca, ou seja, nada que foi dado será recebido em troca? Se é isso que interessa numa análise, não há porque fazer o sujeito se envergonhar desses sentimentos ou pedir perdão por eles e tentar ser alguém com sentimentos mais nobres. Como delegar a razão de ser como se é aos astros, à entidades, e energia cósmica se o que se propõe numa análise é fazer com que o sujeito se responsabilize e se reconheça como quem traça seu caminho? Como responder ao Eu que é pura máscara, como algo que engana e portanto culmina no fracasso?
A Psicanálise acontece no caso a caso. Nenhum caso clínico é igual ao outro. Não há causa e efeito garantidos. Mais um ponto que a faz se diferenciar da ciência.
Cada analista tem que reinventar a Psicanálise em sua clínica, mas no sentido de se permitir a escutar o novo, e não no sentido de lidar com essa escuta de maneira padronizada como o que serve para um paciente, serve para outro. E essa invenção não pode apontar uma esquizofrenia: um pouco daqui, um pouco dali, como uma colcha de retalhos confeccionada de pedaços soltos de teorias e práticas diversas.
Uma coisa é achar que um caminho é bom, outra coisa é achar que um caminho é o único. A Psicanálise nunca se pretendeu para todos. Há os que dificilmente entrarão no discurso analítico - para não falar jamais. Entrar no discurso analítico implica em acreditar no funcionamento do inconsciente e se render ao seu saber. É uma escolha. E como toda escolha é preciso abrir mão de outras que não vêm no mesmo pacote. Há muitos outros caminhos, esse é apenas um. Há lugar para todos, mas é preciso ter cuidado com os atalhos que podem disvirtuar de uma maneira tal que quando se dá conta, percebe que saiu por completo do caminho que julgou ter estado.
Toda escolha é cara e comporta uma perda. Para escolher e seguir rumo ao desejo é preciso ter coragem para perder.
Flávia Albuquerque - Psicanalista - (21) 9792-8326 ou fmaa@uol.com.br







































