A questão da psicanálise selvagem e da análise leiga na atualidade

Publicado: domingo, 23 setembro, 2007 em estudo, Freud, inconsciente, Lacan, psicanálise

Me pergunto o que escreveria Freud em seu artigo Psicanálise Selvagem se presenciasse o (mau) uso que fazem da Psicanálise atualmente.

É assustador o número de instituições oferecendo cursos com a garantia de uma prática clínica aos que neles se matriculam chegando ao absurdo de oferecer um documento – que nunca existiu na história da Psicanálise – como ‘prova’ de tal prática. Na carona destas instituições, muitas pessoas oferecem escuta se dizendo psicanalista, e o paciente, na sua ignorância sem culpa, fica a mercê de fracassos – na melhor das hipóteses – ou, muito freqüentemente, sofrem danos irreparáveis.

É sabido – não por todos, já que ainda há os que acreditam que somente psicólogos e/ou médicos podem exercer a Psicanálise – que não há uma graduação que funcione como um pré-requisito para ser um psicanalista. Mas esse distanciamento entre a universidade e a formação psicanalítica não pode ser mal interpretado a ponto da Psicanálise ser levada num tom descomprometido. Por exemplo, uma propaganda do tipo ‘tenha uma renda extra com psicanálise, sua nova profissão’ é uma afronta à prática analítica que se pretende séria e demanda investimento e dedicação constante.

O fato de se insistir que a formação psicanalítica seja diferenciada de uma formação acadêmica tem sua razão e ela não é qualquer. A Psicanálise se direciona ao saber inconsciente. Saber este que não se aprende, mas se experimenta. A invenção freudiana não é uma ciência, posto que a ciência visa alcançar uma verdade absoluta e imutável. Para a Psicanálise toda a verdade é meia já que se trata da verdade inconsciente que comporta necessariamente uma falta. E, além do mais, Psicanálise é uma ética e não uma profissão. Tanto que não há um regulamento com leis que possam dar conta de sua prática. Todas as tentativas em regulamentá-la felizmente foram fracassadas, e se depender dos psicanalistas ela jamais será regulamentada. Pois qualquer lei engessaria a práxis psicanalítica impossibilitando que ela se realize de acordo com o funcionamento do inconsciente que comporta suas próprias leis. Portanto, uma instituição que oferece um documento (diploma, carteira) que garanta o exercício da Psicanálise precisa, no mínimo, ser questionada.

A respeito da formação universitária – graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado… – nada ter a ver com uma condição para exercer a Psicanálise, cito Freud em A questão da análise leiga: ‘Talvez venha a acontecer (…) que os leigos não sejam realmente leigos, e que os médicos não tenham exatamente as mesmas qualidades que se teria o direito de esperar deles’. Portanto não é a formação acadêmica que vai decidir se alguém está apto a ocupar o lugar de analista. Pode parecer ser terra de ninguém, mas embora qualquer um possa fazer a formação de analista não significa que um qualquer possa. E isso faz toda a diferença.

Freud em seu texto Análise terminável e interminável toca na questão da formação: ‘onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações de que necessitará em sua profissão? A resposta é: na análise de si mesmo, com a qual começa sua preparação para a futura atividade.’ Ou seja, o Pai da Psicanálise é pontual quando declara que esse é o passo inicial indispensável a ser dado por quem deseja fazer uma clínica psicanalítica. É avançando no saber de seu próprio inconsciente que se é possível conduzir uma análise de um outro que, por sua vez, vai trilhar o seu caminho em direção à sua própria verdade. Mas apenas se submeter à análise não é tudo, é preciso ainda se engajar em um estudo teórico constante com outros pares e fazer supervisão dos casos clínicos. Esse é o tripé clássico fundamental para que se ‘forme’ um psicanalista. E aqui coloco ‘forme’ entre aspas pois é imoportante frisar que, na verdade, ele estará sempre em formação. O que impede radicalmente que o simples cumprimento de uma carga horária garanta o exercício da ética psicanalítica.

Lacan, como não podia deixar de ser a partir de seu retorno a Freud, sempre se propôs a pensar e repensar a questão da formação. Ele dizia que ‘o analista só se autoriza pos si mesmo e por alguns outros’. Entendendo, minimamente, esses ‘outros’ como os pares, o psicanalista que o conduz em análise e os próprios pacientes que o reconhecem como tal e o sustentam no lugar de analista.

Por fim, não há problema em se oferecer cursos de psicanálise – até porque isso alimenta o estudo teórico essencial na formação. A crítica irredutível é quanto à garantia da permissão de clinicar através dos mesmos. Isso sim é perigoso e beira o charlatanismo. E eu nem me ocupei em dissertar sobre o inadmissível fato dos que ocupam cargos religiosos e misturam religião com Psicanálise em suas práticas…

E quanto àquele que não tem a intenção de seguir o percurso psicanalítico como prática, mas deseja fazer uma análise? Qual o cuidado necessário para que não corra o perigo de cair nas mãos de um ‘falso’ psicanalista? A verdade é que garantia não há, mas é preciso ficar atento aos que se oferecem como psicanalista dentre outras práticas. Quem se diz ser tantas coisas, nada é efetivamente. Mesmo porque fica inviável uma prática psicanalítica junto com outras visto que a Psicanálise carrega uma singularidade por conta do seu compromisso com o saber inconsciente que, ao ser descoberto por Freud, trouxe consigo um teor totalmente subversivo.

Quem quiser e estiver apto a praticar psicoterapia, escuta religiosa, hipnose, misticismo entre outras coisas, deve fazê-lo defendendo com unhas e dentes sua prática se preocupando em exercê-la bem e será reconhecido. Mas não pode se nomear psicanalista.

‘O QUE SE ESPERA DE UM PSICANALISTA É PSICANÁLISE.’ Jacques Lacan.

Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326 ou fmaa@uol.com.br

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comentários
  1. Fabiola disse:

    Belíssimo texto!!!
    Parabéns.

  2. Excelente ! Alguns comentários…

    > Por exemplo, uma propaganda do tipo ‘tenha uma renda extra com psicanálise,
    > sua nova profissão’ é uma afronta à prática analítica que se pretende séria
    > e demanda investimento e dedicação constante.

    Excelente ;))))

    > Saber este que não se aprende, mas se experimenta.

    Por mais óbvio que pareça ser, isso deve ser sempre relembrado. Excelente ;)))

    > Pode parecer ser terra de ninguém, mas embora qualquer um possa fazer
    > a formação de analista não significa que um qualquer possa. E isso faz toda a diferença.

    Excelente ;)))

    > Psicanálise é uma ética e não uma profissão.

    Adorei isso. Excelente ;)))

    Beijos. 8))))))))))))))))))

  3. Apenas uma ressalva…

    > A invenção freudiana não é uma ciência, posto que a ciência visa alcançar uma verdade absoluta e imutável.

    Isso me parece um mito e uma caricatura do que seja “ciência” — ou melhor “o que chamamos de ciência”. O método científico, tal como proposto por Khun e Popper (sempre mal compreendidos), prepôe-se a trabalhar com hipóteses e nunca com verdades absolutas, é um postulado básico epistemológico. O problema é quando a ciência torna-se religião, de forma parecida com o que Lacan observou na psicanálise. A verdade absoluta é uma grande heresia para os “bons” cintistas, para aqueles que copreendem — que são minoria, creio.

    “Qualquer classe de ciência baseia-se na auto-revisão, inclusive de seus axiomas e pressupostos mais fundamentais e arraigados. Tal fato pode causar certo mal-estar naqueles que se agarrarem a ela como nova forma de salvação.” — Karl Popper

    Mas compreendi o que quis dizer.

    Beijos. 8)))))))))))))))))))))))))))))))))

  4. Daniel Maribondo disse:

    Flávia,

    O texto está muito bem escrito, mas eu, como “leigo” em psicanálise e numa leitura primeira, identifiquei alguns “nós confusos”

    1. É colocado que “felizmente” não há uma regulamentação da Psicanálise, contudo ao longo do texto são colocadas várias regras para sua prática/formação, por exemplo:

    – não deve ser “misturada” a outras abordagens (“Quem se diz ser tantas coisas, nada é efetivamente”)
    – não deve ser mesclada a religião (“inadmissível”)
    – submeter-se a análise (ainda que o trecho de Freud que colocaste diga “análise de si mesmo”, que não é exatamente a mesma coisa)

    Questão que eu coloco:
    Acho sim que existe uma regulamentação interna da Psicanálise – o “como deve ser feita”. E regulamentação feita pelos próprios Psicanalistas.
    O que não existe é uma regulamentação externa, como a exercida pelo Sistema Conselhos de Psicologia sobre o psicólogo. E é realmente uma questão complicada, pois há questões éticas que envolvem a prática psicanalista que, dependendo do próprio “mau uso” que colocou, podem levar a danos irreparáveis. E daí, como proceder? O “mau psicanalista” continua causando esses danos?

    Enfim, quais regras valem?! Só as internas?

    2. Concordo que essa problemática do “mau uso da Psicanálise” é realmente forte, aliás, se extende a todas as práticas psi. Mas acho que não se restringe aos casos que colocou, isto é, a oferta de “cursos legitimadores de psicanalistas” ou “mistureba de abordagens”. Acho que o “mau uso” se expressa até mesmo nos mais fiéis a Freud, Lacan e outros.

    3. Eu não entendo uma coisa. Se está sendo questionada a formação em Psicanálise, como ficam os cursos de formação oferecidos pelas Sociedades de Psicanálise? Também questiona a sua validade?

    Abraços,
    Daniel

    • Ricardo f Cruz disse:

      meu caro amigo Daniel, eu li seu comentário e atentei pra sua dúvida , este texto de psicanalise Silvestre Freud afirma na verdade qual é o papel do analista como sendo as vezes silvestre pois é comum aos analistas mal iniciados ( ele chama de médicos )pensarem que devem reforçar um dos lados de um conflito . Quando se trata do termo danos irreparáveis isso deve estar entre aspas pois em ciência psíquica não se pode pensar que o individuo é um ser estático mas dialético, ate por que no outro texto Freud , fala em recordar repetir e elaborar … tudo volta sempre volta nada é pra sempre na natureza humana …

  5. Marcelo H M de Souza disse:

    Muito bom o seu texto, Flávia. Especialmente porque toca numa questão que eu acho bem relevante para a psicanálise contemporânea, e que a Elisabeth Roudinesco toca também, em seu livro “A análise e o arquivo”.
    A grande questão que fica, para mim, é o fato de que o discurso atual, que busca eximir o ego de seu mal-estar, traz para os sujeitos uma sensação de estar sempre exaltando as próprias escolhas, mesmo que as mesmas sejam totalmente equivocadas. Em outras palavras, vivemos o mundo do “pelo menos”.
    Além disso, sabemos bem, há a coisa do mercado, que ecoa sempre o repertório do transeunte das vitrines. O eco é extremamente problemático, porque legitima, quase sempre, a ignorância das redundâncias egóicas.
    Entendo, então, que o problema de hoje está justamente no fato de que a escolha dos pacientes é sempre moldada por dois fatores fundamentais: primeiro, a escolha é sempre exaltada enquanto ato individual-próprio: “sei que acertei: não posso errar”. E segundo, é para mim, enquanto pessoa isolada, que a análise se direciona: o resto que se dane.
    O mal-estar, hoje, não me parece ser mais o outro, mas o fato de que o outro, esporadicamente, não “ME” (ao ‘eu’) reflete. Buscava-se, no outro, antigamente, identificação. Hoje, o que se busca é uma redundância bizarra. E o analista não fecha com esse quadro, sendo aí a residência de sua complexidade.
    Parabéns pelo texto.
    Marcelo H M de Souza

  6. Mara Rubia disse:

    ADOREI ESSE TEXTO QUE FALA DA PSICANÁLISE, ESTOU REALMENTE PRECISANDO PARA ESTUDAR, MINHA MENTE CLAREOU MAIS….

  7. Odimariles Dantas disse:

    Excelente Flávia, o texto para mim é claro e traz muita lógica.
    Odimariles Dantas

  8. Adorno disse:

    Aqueles que prefeririam a psicanálise sendo regulamentada ou que afirmam existir essa regulamentação de forma interna nela própria, são as mesmas pessoas que foram “pegas” pelo Discurso do Mestre, sem o saber, claro. Confundir “métodos psicanalíticos” com simples regras que “fundamentariam e estruturariam a psicanálise, garantindo-a” seria a mesma coisa que querer domesticar o inconsciente. Antes de mais nada, muita leitura para compreender os pressupostos da psicanálise, sua história e contexto, não fariam mal a muitos daqui que escreveram.

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