Primeiro, o texto:
“NORMOSE (Martha Medeiros)“
Martha Medeiros (02.08.07) Jornal Zero Hora - P.Alegre-RS
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Quem não se “normaliza” acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas? Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha “presença”
através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, sejam lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo. A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais. Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Por isso divulgo o alerta: a normose está
doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes!
É a velha e maior doença do ser humano: querer ser amado. E não só querendo seguir um padrão, mas também querendo fugir dele. Atente pro final do texto em que ela fala que as pessoas que mais admiramos são as originais. Para ser admirado (amado) é preciso ser diferente. Para ser diferente é preciso, também, um padrão. É ilusão achar que devemos seguir a risca o que ‘desejamos’ ser sem ficar aprisionado ao que o outro espera de nós. É no lugar em que o sujeito tenta articular seu desejo que ele depara com o desejo do Outro. O sujeito é um ser da linguagem exatamente porque está submetido ao Outro - e aí coloco Outro com maiúscula, a partir da teoria lacaniana, que representa o que chamamos o ‘grande outro’, ou seja, o outro a quem nos referenciamos por ser aquele que nos ofereceu o campo da linguagem para que possamos nos constituir como sujeito ‘único’ diante daquele com quem tanto nos importamos, amamos e queremos ser amados. É a pura contradição do próprio neurótico. A militância do amor do neurótico, ouso dizer, é sua neurose por excelência. É o que nos faz ficar na corda bamba, ficar na dúvida, se inserir na lógica de uma economia que é psíquica. Excelente quando ela pergunta: ‘quem espera o quê de nós?’, porque a pergunta eterna do neurótico é: ‘o que o outro quer de mim?’ e é importante o analista escutar algo do tipo: ‘quem - em mim - quer o quê de mim?’ Complicadinha essa construção, né? Mas é por aí. Isso me fez lembrar de uma música do Lulu Santos que diz assim:
’sou flagelado da paixão
retirante do amor
desempregado do coração’
Flávia Albuquerque - psicanalista - (21) 9792-8326 - fmaa@uol.com.br






































5 respostas so far ↓
Francisco // Terça-feira, 20 Novembro, 2007 às 10:14 am
Adorei o artigo postado! Me fez refleitr um pouco sobre a atualidade, ahipermodernidade e a questáo do amor, da demanda…Os sujeitos de hoje encontram-se meio que desorientados em relação ao desejo, vale dizer que sempre foram, os sujeiros neuróticos, ma na hipermodernidade em que vivemos me parece que os sujeitos não encontram mais algo pra se agarrarem, algum ideal, nos tempos em que o Outro não existe o que vemos são sujeitos desvairados com seus gozos, sintomas cada vez mais estranhos e uma difculdade enorme em articular demanda e desejo, na clínica isso fica bem claro, sujeitos “perdidos ” em seus desejos, crianças hiperativas…Ao amor caberá ser inventado, re.inventado! Um novo amor! E nisso a psicanálise tera um grande papel! Parabéns pelo site!!!
Helen // Quinta-feira, 6 Dezembro, 2007 às 10:18 am
Olá! Adorei o site e os artigos postados. Gostaria de saber de que cidade vc é e onde acontecem esses cursos que vc divulga.
Beijos
Toda demanda é demanda de amor « Cristian Stassun // Segunda-feira, 7 Janeiro, 2008 às 1:06 am
[...] demanda é demanda de amor 7 01 2008 Toda demanda é demanda de amor Arquivado em: amor, beleza, bulimia, comportamento, corpo, desejo, economia psíquica, [...]
artur // Segunda-feira, 11 Fevereiro, 2008 às 8:15 pm
normose
acho que até a normose é “normal”. tudo o que o humano cria, faz, inventa,é sempre um ciclo de construções novas. parece a um determinado momento muito ruim mas com o tempo será normal .. até ser novamente reiventado …
Odimariles Dantas // Quarta-feira, 19 Março, 2008 às 12:15 am
“Toda demanda é demanda de amor…e a posição psicanalista encontrada, é nunca atender a esa demanda? o que você acha?
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