Ponto Lacaniano

Atrás da Porta

Domingo, 6 Abril, 2008 · Deixe um comentário

No último sábado, 05 de Abril de 2008, o caderno Ela do Jornal O Globo trouxe uma matéria muito charmosa a respeito dos consultórios psicanalíticos. Não tive acesso às fotos pela internet, mas vale como dica para quem ainda tem o jornal em casa, conferir. De qualquer forma, segue o teto na íntegra:

Treze analistas abrem seus consultórios e explicam o significado daquelas cadeiras, daqueles divãs…

Por Bety Orsini

Quando um paciente entra no consultório do analista, deita no sofá ou se senta numa cadeira confortável, aquele chão que ele pisa assume um caráter mágico capaz de protegê-lo de todos os perigos. É uma sensação de acolhimento e segurança que só os analisandos conhecem, é claro, depois de vencidas as resistências iniciais. Para o paciente, o consultório é uma extensão do corpo do terapeuta, capaz de refleti-lo tanto quanto seus gesto e seu olhar. Mas como será que os psicanalistas decoram suas salas para tornar mais fácil a construção de um encontro humano verdadeiro, a grande tarefa da psicanálise? Treze profissionais abriram seus consultórios para o ELA e nos deixaram fotoanalisar aquele cantinho onde recebem seus pacientes. Chaim Katz, Alberto Goldin, Luiz Alberto Py, Flávio Gikovati, Antonio Quinet, entre outros, falam o que pensam sobre o tema. Goldin acha o conforto da cadeira essencial porque “um terapeuta com dor nas costas seguramente não faz boas interpretações”. O cantinho de Chaim precisa se harmonizar com ele, já que é ali que ele chainiza suas técnicas e dá ritmo a suas falas. Antonio Quinet frisa que, por mais clean que seja um consultório, na prática ele funciona mesmo como um palco do inconsciente. Flávio Gikovate diz que o espaço não deve dar informações demais sobre o profissional. E Paulo Quinet acha inevitável que o terapeuta não apareça como uma pessoa comum. Afinal, parafraseando o mestre Hélio Pelegrino, “não há encontro que seja impessoal, impessoal mesmo é o desencontro”.

Há quatro décadas, os psicanalistas usavam qualquer artifício para não mostrar a sua intimidade. Felizmente para Alberto Goldin, esse tempo passou – hoje todo cenário leva a marca de seu autor. Para ele, um analista se expressa mesmo pelo modo como recebe, senta-se e fala com o paciente. E necessariamente não precisa ter no consultório objetos de decoração, como um porta-retrato, por exemplo.

- Porém, se o tiver não tem a meno importância – garante Goldin.

O psicanalista Octavio Souza faz questão de não ter porta-retratos por perto. Nem com fotografias de vultos históricos da psicanálise, muito menos de parentes. Mas vasos de flores são bem-vindos.

- É uma questão pessoal, mas além disso é importante discriminar entre coisas que são parte da história de uma pessoa e as que são troféus do seu narcisismo. Troféus do narcisismo deveriam ficar na casa do analista, não em seu consultório. E se retratos de parentes em casa tendem a representar referências históricas, no consultório eles correm o risco de incorporar referências narcísicas.

Para Chaim Samuel Katz o cantinho é “do psicanalista”.

- O que os analisandos vêem ou pensam ver ali é dissimétrico ao que enxerga o psicanalista – garante Chaim.

O lacaniano Antonio Quinet sabe que o analista deve ser neutro na relação terapêutica, como apregoava Freud. O que não significa que deve ser neutro na maneira de ser, de vestir e até de decorar seu consultório.

- Muitas vezes, um objeto, um livro ou um quadro desencadeia a transferência e aparece num sonho representando o analista. Não há regras para montar um consultório – diz Quinet, que está preparando uma montagem de “Édipo Rei” com sua Cia. Inconsciente em Cena.

Um vitral que foi importante na vida de Maria Inês França, que está hoje em seu consultório, acabou adquirindo um sentido todo especial para um paciente.

- Certa vez, um deles comentou: ‘Cada vez que venho aqui tenho uma perspectiva nova deste vitral: hoje me parece que todas as flores são frágeis e lá no fundo está escondida uma flor vermelha, latejando’. Um fragmento exemplar porque apresenta um cantinho do analista como um espaço estranhamente familiar e que permite perguntar: afinal, de quem é o vitral e sua história?

Flávio Gikovate acha que que os pacientes gostam mesmo é de sentir que o espaço é constante, que tudo está no mesmo lugar que deixaram da última vez.

- O aconchego parece vir mais da regularidade do que tudo. Eles se sentam no mesmo ponto do sofá e esperam que o terapeuta esteja na mesma cadeira. A maioria detesta mudanças – diz Gikovate, que lança dia 11, na Livraria da Travessa, “Uma história do amor… com final feliz“.

Paulo Quinet confessa que não consegue ser clean.

- Meu jeito de ser é meio bagunçado, com livros que vou lendo e pacotes de remédios espalhados por toda parte.

Beatriz Kuhn acha que o cantinho é um sentimento, não um local físico. E diz que qualquer um que entre no seu consultório, e que esteja sem angústia suficiente para reparar o mundo a sua volta, poderá perceber sua ligação com a arqueologia. O consultório de Bia é decorado com peças originais. Ela garante que não é só para imitar Freud, cuja sala era repleta de estatuetas antigas, sobretudo gregas e egípcias, e de placas e objetos desenterrados em escavações. Freud costumava se referir às suas estatuetas preferidas como se fossem pessoas conhecidas.

- Não é só para imitar Freud (risos), mas porque sou arquóloga e gosto de ter meus objetos preferidos por perto. Independentemente de qualquer satisfação ou necessidade, o sujeito que há no analista estará sempre presente, isso é inevitável. Mesmo sem expor objetos e dentro de uma mesma proposta rigorosamente minimalista, o consultório de um esteta jamais se parecerá com o de um psicanalista menos sensível à beleza.

Para Daniel Guerreiro, é ilusão pensar em otimizar a relação terapêutica por meio de objetos, arrumações ou quaisquer que sejam as formas nesse espaço. E Ana Claudia Vieira Vaz afirma que há muitos equívocos sobre o consultório do analista, como se o ambiente fosse a garantia de uma boa análise.

- O espaço físico de trabalho tem pouco lugar na clínica psicanalítica, não devemos mitificá-lo. Lembro-me de um paciente que acreditava que cada coisa que estava no meu consultório tinha um sentido, como se fosse uma estratégia para possibilitar alguma coisa para aquela análise. Isso me fez acreditar, ainda mais, que nesse espaço onde a mola motora é a transferência, o analisante recortará o que quiser. E ele poderá se apropriar, ou não, dos objetos que lhe convém, mesmo que eles não estejam ali para isto.

Ricardo Braga, único entrevistado que não teve seu consultório fotografado, aconselha iluminação indireta, mas que ela não transforme a sala num lugar lúgubre e sombrio, como uma clausura.

- O consultóriopode ter (ou não) um toque feminino. Um detalhe criado por sua mulher, uma sugestão de sua filha, de uma paciente e, quem sabe, de sua mãe. Acreditem, os analistas também têm mães!

A importância do canitinho pode ser toda ou nenhuma para o paciente. O psicanalista Marco Antonio Figueiredo acha que se ele estiver buscando só auxílio para suas decisões, o cantinho pode até passar desapercebido.

- Mas para um paciente muito regredido, ele pode ter todos os significados. Já a decoração vai depender da linha do profissional, ou até de sua decoradora – diz Marco Antonio. – Mas se há os que, como eu, se preocupam mais com a lombar, não gostam de muito penduricalho, e preferem um setting funcional, como uma decoração dry e duas ótimas poltronas.

Analisanda e respeitada assessora na área de decoração, arquitetura e design, Angela Falcão acha o visual importante. Ela foge de consultórios escuros e adora ter uma janela à vista.

- O cantinho do psi é uma espreguiçadeira para a mente. Pensamentos, emoções e associação livre de idéias precisam fluir. Cada título de livro serve de gancho; cada prateleira, um tipo de apoio diferente; cada quadro, inspiração para nova sessão. O cantinho tem que ser acolhedor. O meu é.

Quando Luiz Alberto Py fez formação, ensianram-lhe muitas regras.

- Não podia ter nada entre a poltrona e o divã porque funcionava como obstrução. Eu tinha uma mesa de apoio e fui aconselhado a pasar a mesa para o outro lado. Mas aprendi com a experiência que o importante é a qualidade do trabalho.

A lacaniana Edméa Maria Gonçalves de Mello acha a idéia do cantinho reducionista e até engraçada.

- Penso que ele é o lugar de acolhimento para que uma pessoa possa se sentir à vontade para falar de si. Espera-se que ela fale por intermédio de seus sonhos, atos falhos e sintomas. Lacan já nos disse, referindo-se ao que se espera do analisando: ‘Fale, meu caro! Vai ser maravilhoso.’

Para a produtora cultural Patrícia Mourão, o cantinho de sua psicanalista é uma viagem de sentidos. Na ante-sala, ela destaca o cheiro inidentificável mas familiar. A música pe deliberadamente clássica. E a médica, mulher antenada, senta-se numa poltrona Eames.

- Depois de experimentar de tudo, meu lugar é no divã, recoberto, como o de Freud, por um pano macio ao qual me entrego. Deitada, meu olhar, ora curioso, ora distraído, percorre estantes, onde livros e objetos revelam, mas nunca completamente, caminhos percorridos. Ali, quando não me decifro, me devoro. E, depois, guiada pelo seu ouvido atento, recolho os cacos que, como num caleidoscópio, viram novos desenhos.

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