Reportagem no caderno Prosa & Verso do Jornal O Globo em 12 de Abril de 2008.
“Charles Melman aborda a importância e a dimensão ética da questão.
A prática psicanalítica hoje — Conferências, de Charles Melman. Tradutores: Márcia Pietroluongo, Paula Glenadel, Sylvia Morard e Fernando Tenório, sob coordenação e revisão de Sérgio Rezende. Editora Tempo Freudiano, 307 páginas. R$55,00
por Angela Jesuíno Ferretto
Chega às livrarias “A prática psicanalítica hoje”, obra lançada pela Editora Tempo Freudiano. Trata-se de uma coletânea de conferências recentes de Charles Melman, reunidas pelo traço comum de partirem da clínica do autor para abordar não apenas os quadros clínicos que fundaram a psicanálise, mas também os efeitos, no sujeito e na psicopatologia, das mudanças em curso no laço social. Esta publicação acontece junto com a vinda de Melman ao Rio para um seminário (promovido pelo Tempo Freudiano e que acontece dias 25 e 26 de abril no Hotel Glória) intitulado: “E o que é que ele quer, o psicanalista?” É uma pergunta da maior atualidade. Especialmente quando, por toda parte, vozes autorizadas oferecem alternativas psicoterápicas e medicamentosas que prometem reparar os males do sujeito a curto prazo, sem custo e, sobretudo, sem perturbar nosso movimento tão contemporâneo de reivindicar (direitos, créditos, vantagens). O analista está sob suspeita. Pensando bem, se sabemos com Lacan que a ética da psicanálise implica abrir mão de nossos pequenos arranjos e se deixar incomodar pelo desejo, por que seria diferente? Em “A prática psicanalítica hoje”, Melman coloca em relevo a dimensão ética da questão, guiado pela preocupação de tornar vivas para seu público a teoria e a clínica psicanalíticas.
Psicanalista francês cujo ensino há muito é uma referência na psicanálise, Charles Melman foi um dos principais colaboradores de Lacan, tendo sido diretor de ensino de sua instituição, a Escola Freudiana de Paris, e de sua revista, “Scilicet”. Após a morte de Lacan, fundou a Associação Freudiana Internacional, atual Associação Lacaniana Internacional. Mantém em Paris, há mais de 20 anos, um seminário regular, que deu origem a uma extensa obra publicada. Neste novo livro, alguns trabalhos retomam seu percurso de ensino em torno das estruturas clínicas para interrogar, a partir do discurso psicanalítico, o que é “A identidade histérica”, “A lógica do obsessivo” e a invenção paranóica. Mas o autor não se limita a tratar daqueles mais centralmente afetados por estas condições, e estende sua reflexão ao próprio psicanalista (“A essência do psicanalista”), a Lacan (“A prática de Lacan”), às mães e às mulheres (“Função das mães nos dias de hoje”), e igualmente a cada um de nós (“Como é que nos tornamos neuróticos?”), inclusive ao que seria nossa normalidade (“Clínica da normalidade”). Outras questões são também examinadas a partir do que a clínica revela de uma nova ordem social e familiar que trata o desejo mais como necessidade a ser satisfeita do que como tensão mantida por um impossível a satisfazer e um objeto inatingível. Está em jogo a reflexão sobre o que o autor chama de uma nova economia psíquica. Em “Os perigos do casal”, ao tratar da solução que nossa modernidade oferece a esse conflito velho como o mundo, Melman mostra como promovemos arranjos paritários para a diferença entre os sexos e a economia do desejo, evitando o encontro com uma alteridade. A toxicomania e a violência não são novas entidades clínicas, são antes sintomas daquilo que nossa sociedade de consumo vem fabricar como laço social e como relação com a linguagem, que é aquilo que nos determina enquanto sujeitos. A já conhecida oposição entre a droga e os poderes da palavra é articulada a uma dificuldade adicional: se a droga é fundamentalmente o meio de resolver o problema do sexo como aquilo que embaraça o sujeito, existe atualmente, no tecido social, uma cumplicidade em torno disso que não quer ser perturbada. Mas é principalmente a referência constante à sua própria prática clínica cotidiana o que distingue as conferências, por fornecerem o testemunho do que é o trabalho de um analista ancorado no seu tempo. Destaca-se o modo peculiar pelo qual o autor se apóia nos conceitos de Freud e de Lacan, que é o de pôr esses conceitos em operação, fazendo-os trabalhar e avançar sobre os problemas que são os nossos, trazidos pelos pacientes de hoje.
Se hoje as exigências da vida acelerada parecem colocar em questão a pertinência da prática psicanalítica sob a alegação de que ela foi criada por Freud na Viena no final do século XIX, o leitor achará aqui a prova viva da existência de uma psicanálise que avança junto com o sujeito moderno e, mais que isso, que interroga justamente as condições necessárias para que algo do sujeito possa continuar a se presentificar face às mutações inéditas do mundo que é o nosso. Enfim, o livro propõe respostas a uma questão que interessa a todos aqueles que praticam este ofício: o que é ser psicanalista hoje?”




































