Ponto Lacaniano

O seminário de Melman

Segunda-feira, 28 Abril, 2008 · Deixe um comentário

Foi uma excelente oportunidade para os que estiveram no Hotel Glória, no Rio, neste último fim de semana (25 e 26 de Abril de 2008) por conta do evento oferecido pelo Tempo Freudiano: O que é que ele quer, o psicanalista?. Com uma pontualidade britânica, o incansável psicanalista francês Charles Melman – 76 anos, colaborador direto de Jacques Lacan, trabalhou a questão da ética. Vale ressaltar o constante apoio de Antônio Carlos Rocha – membro fundador do Tempo Freudiano – e o trabalho árduo e bem feito dos tradutores presentes à mesa possibilitando a riqueza dos lapsos e atos falhos.

Ele lembrou, obviamente, de uma das máximas de Lacan a respeito da ética: ‘não ceder quanto a seu desejo’ pontuando que não há a ‘boa resposta’ e que o ‘animal humano deve renunciar ao que seria uma satisfação para sustentar a incerteza de seu gesto’ (Melman).

A seguir, alguns dos que considerei os ponstos altos de sua fala*:

‘ Quando um menino se interessa por uma menina, ela tem duas respostas a oferecer: ou não quer que o outro se interesse por ela, ou a maneira como ele se interessa é inadequada. Há um não saber a respeito da boa posição dentro de uma relação.’

‘ Há uma sabedoria que se refere à religião e a moral que não tem nada a ver com a Psicanálise. Seria conveniente aceitar nossa própria condição humana: nós não podemos atingir nem a felicidade e nem o bem. Não há resposta para a questão da felicidade e do bem.’ 

‘ O que vinha dominar na escola de Lacan era sua ética. A ética de Lacan era exatamente a mesma de Freud, dizer as coisas como elas são, dizer o que há. O psicanalista se interessa pelo desejo.’

‘ A satisfação das necessidades não é muito simples. Por conta da relação com o desejo. A demanda transborda com a questão de sempre querer mais.’

‘ O enigma da psicanálise não se faz de um saber mas um de um questionamento ao saber. Um saber que lida com o real, com a impossibilidade do saber. É o problema da diferença da psicologia e da psicanálise.’

‘A psicanálise enquanto não-ciência: aquilo que a psicanálise busca não é suprimir o impossível, mas deslocá-lo. Por exemplo, a fórmula lacaniana: não há relação sexual. Uma das interrogações de Lacan era: será que que podemos deslocar o impossível de tal modo que a insatisfação da sexualidade fosse resolvida? (…) A ciência foraclui o sujeito, já a psicanálise inclui o sujeito nos seus cálculos. (…) O cientista não se interessa pela verdade, se interessa pelo modelo. É extraordinário que a seja a psicanálise que nessa ocasião possa vir a sublinhar o que é a verdade do sujeito.’

‘ Com essa pergunta ao Outro que se mantém sem resposta: o quê é o bom objeto do desejo? temos como resposta: o objeto que você escolheu na sua fantasia e que faz a lei do seu desejo.’

‘Lacan diz que a ética da psicanálise é a de não ceder quanto a seu desejo, isto é, não aceitar os sintomas da neurose. A sintomatologia do homem moderno é seu temor de estar perto demais do objeto do seu desejo. O neurótico mantém a nostalgia daquilo que seria sua felicidade, se cercando de proteção contra o objeto esperado.’

*é importante ressaltar que faz parte de minhas anotações a partir da tradução do evento, portanto não é a transcrição oficial do mesmo

postado por Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326 / flavia@pontolacaniano.com.br ou fmaa@uol.com.br

Categorias: Charles Melman · Formação do Analista · Freud · Lacan · Tempo Freudiano · amor · angústia · clínica · comportamento · cultura · desejo · economia psíquica · escola de psicanálise · estudo · evento · falta · felicidade · inconsciente · lacaniano(a) · mal-estar · neurose · prática · psicanalista · psicanálise · psicologia · real · relação · religião · seminário · ser · sintoma · sociedade · sofrimento · sujeito · transmissão e ensino · técnica · verdade · ética

HOJE NO RODA VIVA – tv cultura – 22:40

Segunda-feira, 28 Abril, 2008 · 2 Comentários

Contardo Calligaris
Psicanalista

 

A análise do mundo e da vida contemporânea

 

Sexo, violência, casamento, adolescência, política e conflitos culturais

A sociedade vive a expectativa de mudanças sensíveis muito em breve. O aquecimento global obriga a tomada de medidas para impedir o desmatamento, buscar combustíveis menos poluentes e evitar a falta de alimentos. Os atentados de setembro de 2001 provocaram sentimentos de indignação e revolta na população, enquanto outras pessoas comemoraram. A Europa vive uma onda de xenofobia que expõe uma contradição: europeus precisam de imigrantes, mas não conseguem conviver com eles. Os brasileiros compartilham o sentimento de uma nação, mas com a dúvida se todos estão no mesmo barco.

No divã do terapeuta, além das inúmeras colocações do mundo, as dificuldades sentimentais e amorosas se misturam às frustrações e tentativas de juntar os cacos de relações em crise. No extremo do desamor e do desafet o, a violência social e doméstica aterrorizam as pessoas, expondo assassinatos, inclusive com jovens e crianças como vítimas.

Contardo Calligaris reflete e escreve sobre o cotidiano que nos rodeia. Ele considera que se as pessoas pensarem e refletirem mais, elas podem ter uma experiência de vida melhor. Faz suas análises pelo olhar de um estrangeiro ou de um desterrado, como costuma se definir. Nascido em Milão, na Itália, há sessenta anos, está radicado no Brasil há vinte.
Ele escreve uma coluna no jornal Folha de S. Paulo há treze anos e tem publicado centenas de ensaios, crônicas e 11 livros.

Participam como convidados entrevistadores:
Jurandir Freire Costa, psicanalista, escritor e professor de medicina social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Ricardo Kotscho, repórter da revista Brasileiros e do portal IG; Caterina Koltai, socióloga e psicanalista, professora dos programas de graduação e pós-graduação em ciências sociais da PUC de São Paulo; Clóvis Rossi, colunista do jornal Folha de S. Paulo; Eliane Brum, repórter especial da revista Época; Mário Sérgio Cortella, professor-titular do departamento de teologia e ciências da religião da PUC – São Paulo.

Apresentação: Mônica Teixeira

postado por Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326 / flavia@pontolacaniano.com.br ou fmaa@uol.com.br

Categorias: Freud · cultura · evento · inconsciente · prática · psicanalista · psicanálise · psicologia · sociedade · sujeito

DICA DE LIVRO – O dia em que Lacan me adotou

Segunda-feira, 28 Abril, 2008 · Deixe um comentário

“No dia seguinte, depois que ele me fez entrar no consultório, decidi não me deitar. Sentei-me, calmo e decidido, na beira do divã. Ele ficou muito surpreso. “O que está acontecendo?
- Desta vez quero lhe falar frente a frente.
- Pois bem, de acordo!”

Ele se sentou diante de mim. Parecia muito emocionado, inquieto talvez. As palavras brotavam da minha boca, cortantes feito uma lâmina, numa total verdade. O que eu disse nesse dia? Uma longa queixa provavelmente, brotada de meu infinito abandono. Ele me escutava no mesmo nível de verdade. Nem ele nem eu gozávamos. Algo da vida e da morte estava em debate.”

Este texto é o relato, quase o romance de uma experiência que transformou radicalmente a vida de seu autor. Em 1969, sendo então engenheiro agrônomo, Gerard Haddad encontra Jacques Lacan e começa com ele uma psicanálise. Essa aventura vai durar onze anos ao longo dos quais se terá operado uma metamorfose. Pela primeira vez, desde Freud, um psicanalista arrisca contar sua própria análise. Ele nos dá aqui um testemunho único sobre a prática tão controvertida de Lacan, ao qual no entanto o autor presta homenagem.

postado por Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326 / flavia@pontolacaniano.com.br ou fmaa@uol.com.br

Categorias: Formação do Analista · Freud · Lacan · angústia · ato analítico · clínica · comportamento · consultório · desejo · divã · estudo · inconsciente · início · lacaniano(a) · linguagem · livro · neurose · pagamento em análise · prática · psicanalista · psicanálise · religião · seminário · sintoma · sonho · sujeito · transferência · transmissão e ensino · técnica · ética