Não se encontra na ficção um caso similar ao praticado por Josef Fritzl, o austríaco que manteve a filha em cativeiro por 24 anos, tendo com ela relações incestuosas. Autores, roteiristas, ficcionistas, ainda não haviam sequer imaginado tamanha demência para escrevê-la em livro ou transformá-la em filme de terror. Depois deste caso, a arte terá de continuar sua perseguição à vida, pois a realidade continua sendo mais espantosa que a própria ficção.
O comportamento sexual incestuoso de Josef fortalece com vigor nossas origens animalescas e rudimentares e traz à tona a necessidade de uma reflexão – sempre bem-vinda – de querer entender o quanto do animal ainda habita em nós. Assim, quando se pensa que o ser humano evoluiu em termos de comportamento, a vida se encarrega de mostrar fatos nada promissores da espécie humana. Um verdadeiro vai-e-vem entre progresso e retrocesso que coloca a evolução do homem no formato trancos-e-barrancos, entre luz e sombras, onde, em muitos momentos, os animais irracionais parecem mesmo nos superar, principalmente em termos de comportamento e na lida com o outro.
Não se pode alegar que o caso incestuoso de porão, de Fritzl e sua filha Elisabeth, seja um problema econômico-social. Afinal, a Áustria é uma república federativa de primeiro mundo, localizada na Europa Central, com um PIB próximo aos $ 200 bilhões e cercada de uma “boa vizinhança”. Terra natal do compositor Mozart, do pai da psicanálise Freud, do governador e ator Schwarznegger e do piloto Niki Lauda. Também são austríacos os filósofos Karl Popper e Wittgenstein. Entretanto, neste mesmo país nasceu o ditador nazista Adolf Hitler, o que demonstra claramente que desvios patológicos como o de Fritzl tem entranhas que não podem ser explicadas apenas pela influência do meio em que se vive. Portanto, é preciso ter cuidado e tratar com carinho o animal que habita em nós, mantendo-o sobre controle e, muitas vezes a ferro e fogo, preservá-lo sob o cativeiro da razão. Enfim, este é mais um caso a ser estudado com profundidade pela psicanálise.
Sérgio Peixoto Mendes/Filósofo (publicado no www.gazetadosul.com.br)
postado por Flávia Albuquerque - Psicanalista - (21) 9792-8326 / flavia@pontolacaniano.com.br





































