“Hacés diván? Esta é a segunda pergunta que um portenho faz para outro quando são apresentados. A primeira é o nome, é claro. Exagero? A Argentina tem um psicólogo para cada 650 habitantes – três vezes mais que nos países desenvolvidos. Em Buenos Aires a relação é de um para 120 segundo pesquisa da Universidade de Palermo. Mais que em Paris e Nova York! Aqui todo mundo é ou já foi psicoanalisado.
Em 2010, serão celebrados os 100 anos da chegada da psicanálise na Argentina. Os debates começaram a pipocar, principalmente nas mesas dos sugestivos Bar Sigi e Café Narciso, em Villa Freud, bairro que não faz parte da cartografia oficial, mas que todos sabem onde fica: “dentro” de Palermo, entre as ruas Medrano, Salguero, Mansilla e Charcas, onde estão estabelecidos cerca de mil consultórios. A maior concentração de psicólogos por metro quadrado – principalmente de orientação psicanalítica – de Buenos Aires.
No entanto, além das comemorações oficiais, é interessante observar como a psicanálise se instalou no cotidiano dos portenhos, desde seu auge, nos anos 60. A população está familiarizada com palavras como “inconsciente, negación, proyección” e expressões como “sos una histérica” ou “estás somatizando” são bem comuns.
Ao longo dos anos, o discurso psi também chegou à mídia. O jornal Página 12 dedica duas páginas semanais à seção Psicologia, além de manter uma tira cujo principal personagem é Gaspar, El Revolú, que está sempre no divã e é cotidianamente assaltado pelo polvo El Culpo.
Nas rádios, o psicólogo Gabriel Rolón conduz Noches de Diván, na rádio Mitre, e comparte um segundo programa na popular Rock & Pop. A projeção lhe rendeu dois best-sellers: os livros Historias de diván e Palavras Cruzadas. Por fim, seu programa de televisão, chamado Terapia (Única Sessão), também registra audiência respeitável.
Diz-se que esse entusiasmo pela psicanálise advém do fato de o portenho ser um italiano desterrado, que fala espanhol, se comporta como francês, mas que gostaria de ser inglês. E que, por isso, não é surpreendente que o país seja cheio de neuroses. Pode ser verdade, mas isso é papo para outra conversa. Como dizem por aqui os terapeutas no final das sessões, “lo vemos en la próxima”…
Gisele Teixeira é jornalista.”
FONTE: BLOG DO NOBLAT




































