MEU CIGARRO, MINHA VIDA

Publicado: quarta-feira, 13 maio, 2009 em comportamento, desejo, estudo, Freud, inconsciente, Lacan, lacaniano(a), psicanalista, psicanálise, sujeito

“O uso de tabaco representa a maior causa de doenças já documentada em toda a história médica até a atualidade. Quando se pensa em tabagismo e em iniciativas em relação ao seu fim, é importante que o problema da dependência seja levado em consideração. Esta informação pode ser veiculada a duras penas, confrontada constantemente pelas tentativas que as multinacionais relacionadas ao cigarro mantinham de confundir a opinião pública. A dependência química ocasionada pela nicotina é Comparável à provocada pela cocaína e mesmo pela heroína, conseqüentemente levando o indivíduo à síndrome de abstinência, quando descontinua seu padrão de uso regular.

Apesar de socialmente aceito, ao contrário das citadas drogas ilícitas, o padrão de uso social e repetitivo do tabaco e da nicotina, acompanhando o fumante recorrentemente nas mesmas situações, ao longo de anos, insere uma nova dificuldade à pessoa que tem a intenção de livrar-se do tabagismo: o condicionamento de seu padrão de uso à rotina diária e aos eventos mais diversos da vida.

Além destes difíceis obstáculos em relação às particularidades da dependência provocada pelo cigarro, a forma com que os indivíduos são “capturados” por seu “algoz” chama a atenção do observador mais atento. O cigarro não é prazeroso ao iniciante no hábito. Causa mesmo, em alguns casos, efeitos aversivos, como náusea, dor de cabeça, tosse e paladar ruim. Estes sintomas cedem com o uso contínuo. Assim, o “calouro” insiste. Qual seria a explicação? A história do uso de substâncias psicoativas é tão antiga quanto a própria história da humanidade.

O uso de tabaco representa a maior causa de doenças já documentada em toda a história médica. Aqui, a dependência precisa ser levada em consideração.

Um diferencial importante, no entanto, é o papel cultural ocupado por essas substâncias, nas diferentes épocas. Ao pensarmos em civilizações da Antiguidade, por exemplo, ou civilizações primitivas, as substâncias psicoativas tinham seu uso inserido em seu contexto cultural, com significado compartilhado socialmente ao longo de gerações, o que ao mesmo tempo regulava seu uso e o associava a um rico acervo de ritos e tradições. O indivíduo, na sociedade ocidental do pós-guerra, padece do esvaziamento de valores e tradições que antes o norteavam. Significados existenciais e espirituais são colocados em choque a partir da realidade da destruição do homem pelo homem. Novas relações sociais e de trabalho são estabelecidas, fragmentando o homem, o tornando cada vez mais desintegrado.

cigarrossublimes   O escritor Richard Klein conta no livro Cigarros são sublimes (Editora Rocco), considerada uma das melhores obras de não-ficção sobre o assunto, como o cigarro permeia as diferentes épocas da história, fazendo que o número de fumantes sempre aumente. “Em parte por seus efeitos psicológicos específicos, o cigarro é freqüentemente o companheiro indispensável de soldados em combate, com o que se conta para manter sua coragem e resistência em circunstâncias intoleravelmente estressantes”.

Ritos de passagem
Os significados de outrora, encontrados em alicerces culturais, tradições, crenças religiosas, objetos cerimoniais, são desacreditados. Esse momento predispõe ao recurso de substâncias, agora com o objetivo de alívio e de integração. O indivíduo é mais suscetível à fuga pelas drogas do que jamais foi em toda a sua história anterior. Desprovida de seus ritos de passagem e iniciação, as sociedades contemporâneas apresentam um padrão de uso de psicotrópicos, muitas vezes associado a essas fases de transição, marcado por um caráter destrutivo, descontrolado e profano.

O tabagismo é reconhecidamente a porta de entrada para o uso de outras drogas pelos adolescentes. “Por fim, fiquei absorvido pela cultura em torno do cigarro e ao que ela dá margem, pela riqueza notável dos cigarros como exemplo, tema, tópico ou até mesmo personagem das principais obras modernas de Filosofia, poesia, ficção e cinema” – diz Klein. Apesar de toda a atenção dada ao fenômeno do tabagismo pela mídia, governo e autoridades, é sabido que o uso desta substância, por adolescentes, nos últimos 20 anos nos Estados Unidos, chega a níveis epidêmicos. Sua sociedade é um exemplo radical de nossa sociedade contemporânea, em seus valores e expectativas.

“A evidência da ligação simbólica entre o tabagismo e a liberdade é muito bem ilustrada pelo fato histórico ocorrido em abril de 1945, na França, quando as mulheres pela primeira vez na história obtiveram o direito do voto e a certa quantidade de cigarros” – afirma o autor.O capitalismo, que está na base da organização de nossa sociedade, traz o apelo ao individualismo em um mundo onde as pessoas cada vez mais não passam de números e carecem de reconhecimento e da sensação de serem acolhidas e de pertencerem a um grupo. A busca da individualidade, que é um apelo da sociedade moderna e que exige que estejamos sós, às vezes pode ser suportável, mas costuma provocar um desconforto maior.

A necessidade de “fazer parte”, de se acoplar a alguém de forma a recuperar a paz e a harmonia, é a manifestação do instinto do amor, que surge a partir da separação inicial da mãe. Pode-se entender que este sentimento está na raiz da experiência mística, de uma integração com o todo maior, com o universo, com Deus. “O momento de pegar um cigarro possibilita que se abra um parêntese no tempo, de atenção intensificada, que origina um sentimento de transcendência, evocado por meio do ritual do fogo, da fumaça, da brasa, ligando mãos, pulmões, respiração e boca.”

O cigarro não é prazeroso ao iniciante no hábito. Causa mesmo, em alguns casos, efeitos aversivos, como náusea, dor de cabeça, tosse e paladar ruim

Pode haver, no entanto, a substituição destas figuras de amor, por objetos. O homem se “apega” ao seu carro, à sua casa, à sua carreira. Esta relação é, em algum grau, uma forma de dependência, que podemos chamar de psicológica. A dependência uma vez estabelecida representa risco de sofrimento. “Parando de fumar, deve-se lamentar a perda de algo na vida ou de alguém imensamente, intensamente belo, deve entristecer- se pelo desaparecimento de uma estrela.”
Pessoas com menor capacidade de lidar com os sentimentos tenderão a transferir suas afeições a objetos, com os quais terão risco bem menores de sofrimento. Nossa sociedade capitalista, descrita até agora, estimula o apego a objetos, e a este tipo de dependência. A fase da adolescência é claramente a mais suscetível ao antagonismo entre integração e individuação.

Se a sensação de reconhecimento e de acoplamento vem a partir do respeito do grupo de amigos que fumam, e se isso passa a ser o fundamental para a manutenção do bem-estar, então haverá um empenho para se conseguir fumar. Já há a dependência (psicológica) da sensação de pertencer ao grupo. Este é o componente que alimenta a necessidade de integração. Por outro lado, a vaidade é responsável pelos sentimentos mais importantes relacionados à individuação e aos instintos sexuais. Tende-se a querer repetir todas as vezes possíveis as situações que tragam a sensação de ser especial e único.

“Vê-se que o cigarro supre o individuo que fuma de suas necessidades básicas: integração e individualização”

Quase todas as propagandas de cigarros traziam a idéia de que você será uma pessoa especial, atraente, irresistível se fumar. Vê-se que o cigarro supre o indivíduo que fuma dessas duas necessidades básicas: integração e individuação. É sabido que 90% dos fumantes começam a fumar antes dos 19 anos de idade. O componente químico da dependência do cigarro não está sempre presente. Os organismos variam muito em sua relação com as drogas em geral. Fatores genéticos, características de personalidade, fatores ambientais estão relacionados. O padrão inicial de uso do cigarro não costuma ser o diário, o hábito torna-se crônico em etapas mais tardias. Nestas condições iniciais, dificilmente se estabelecem condições para a dependência química.

obrigadoporfumar   Cigarro e cinema
Retratado pelo cinema como um ato nobre e elegante, o cigarro e o ato de fumar sempre foram componentes importantes dos filmes de Hollywood. Obrigado por fumar é um dos exemplos desse gênero. 

Alguns estudos falam de números que chegam ao máximo em 5% dos usuários neste padrão. Entende- se, então, o papel dos fatores psicológicos descritos como fundamentais para a evolução do hábito até que, pela manutenção por tempo suficiente, cheguem a causar dependência química. Os estudos apontam para os primeiros 15 anos como os mais importantes para que a dependência química evolua. “Segundo Freud, a satisfação de um desejo resulta na extinção do desejo. Mas os cigarros não respeitam o Princípio do Prazer de Freud: quanto mais cedemos à excitação de fumar, mais desperta-se o desejo.”

Mulheres, as principais vítimas da dependência psicológica
O público feminino é o preferido do cigarro quando o assunto é dependência psicológica. Levantamento feito pelo Grupo de Apoio ao Tabagista (GAT) do Hospital A.C. Camargo, destaca que psicologicamente o tabaco gera nas mulheres efeitos mais intensos e, portanto, causa dificuldades adicionais para que abandonem o vício. Para a psiquiatra e coordenadora do GAT, Célia Lídia da Costa, isso ocorre porque as mulheres são mais sujeitas aos sintomas de depressão e ansiedade. Problema no trabalho, briga com o namorado ou dificuldade em educar os filhos são fatores que costumam fazer com que elas fumem mais.

Segundo a pesquisa, cerca de 90% das fumantes iniciam seu hábito na adolescência, a partir dos 13 anos de idade. Para Célia, esse começo ocorre por pressão social, imitação do grupo e a necessidade de pertencer. “No começo as moças fumam com o intuito de interagir com colegas fumantes. Com o passar do tempo é estabelecido o hábito, ou seja, elas fumam sempre nas mesmas situações, como se algo só fosse dar certo graças ao cigarro. Isto é dependência psicológica.”

Outro fator que favorece o vício e dificulta o rompimento do hábito de fumar é o fato de as mulheres acreditarem que vão engordar se pararem de fumar. “O ganho é relativamente pequeno (cerca de 4 kg), sendo evitável em caso de tratamento com auxílio de especialista.

O maior problema é que elas não apenas temem engordar ao cessarem o vício, como também a maioria começa a fumar por ouvir dizer que este hábito emagrece. Na verdade, quando a pessoa pára de fumar pode acabar substituindo o efeito do cigarro por uma maior avidez por comida. Além disso, o cigarro tende a aumentar o metabolismo do organismo, o que provoca grande gasto de energia, sendo que na cessação o inverso ocorre.”

Célia considera que a principal atitude é a consciência. Não querer parar de fumar é uma tentativa quase sempre inconsciente de fugir do desconforto de precisar abandonar uma fonte de prazer e alívio que o fumante identifica no cigarro. “Cigarro dá prazer e se não fizesse mal ninguém teria por que parar. Mas a realidade a ser encarada é que indiscutivelmente faz muito mal.

A escolha é querer ou não se envenenar. Não há como fugir a essa realidade. No caso de não conseguir sozinho é fundamental procurar ajuda.” São muitos os males causados pelo cigarro à saúde da mulher. Os primeiros sinais são estéticos e sociais. “Elas ganham de brinde rugas ao redor da boca e também rouquidão, tendo a voz invariavelmente confundida com a de homens (o que já é sinal de efeitos nocivos em cordas vocais).

Provoca também um cheiro inconfundível e gera envelhecimento precoce por alterações microvasculares da pele. Tudo isso, definitivamente, não pode ser considerado propriamente um kit de beleza.” A relação entre cigarro e mulheres aumenta os riscos de câncer de pulmão (causador de 98% dos casos) como também de cânceres de boca, esôfago, laringe, faringe, garganta, pâncreas, rim, bexiga, estômago e colo de útero.

Outras conseqüências são o aumento da taxa de infertilidade, alterações menstruais e doenças cardiovasculares. O diretor do Departamento de Cirurgia Torácica do Hospital A. C. Camargo, Jefferson Luiz Gross, avisa que os riscos são ampliados quando o tabaco está associado ao uso de métodos anticoncepcionais. “Pode também causar problemas na gravidez, interferindo diretamente na saúde do bebê, que pode nascer com peso abaixo do ideal, pois o tabaco diminui a chegada de nutrientes pela placenta.”

Dependência psicológica x dependência química – Estudo do GAT feito com 6 mil pacientes em tratamento conclui que em 50% dos casos a dependência do cigarro é exclusivamente psicológica, sendo indicada, nestes casos, a terapia em grupo. Apenas 20% dos pacientes apresentaram dependência grave de nicotina e 30% são dependentes leves ou moderados da substância.

Com o uso diário do cigarro se estabelecem os padrões comportamentais, associando a experiência dos efeitos do cigarro às situações diárias do indivíduo. Automatismos se estabelecem de forma que o uso acontece por associação da padrões estabelecidos, sem a consciência ou mesmo a escolha do fumante.

Com o uso diário do cigarro se estabelecem os padrões comportamentais, associando a experiência dos efeitos do cigarro às situações diárias do indivíduo

Após esse período, os níveis de dependência química tendem a estacionar naqueles indivíduos atingidos até esse ponto. “Sartre afirma que foi fácil parar de fumar à medida que descristalizou a experiência ou seja, quando descobriu outras maneiras de se apossar dos eventos significativos da vida diária: o sabor de um jantar, o perfume.” Apenas metade dos indivíduos que fumam diariamente atinge alguns níveis de dependência química de nicotina. Quando se pensa em dependência química grave, suficiente para que os indivíduos apresentem desconforto mais acentuado, por síndrome de abstinência, esses números podem chegar a apenas 20% dos casos, segundo alguns estudos.

Tratamentos disponiveis
Esses dados importam no sentido de fornecer orientação aos fumantes e manejo adequado de sua experiência de parar de fumar. Muito do conhecimento atual em relação à repercussão psicológica do cigarro no momento da cessação e principalmente desta para que os indivíduos consigam permanecer sem fumar, ainda permanece obscuro.
As informações em relação aos tratamentos disponíveis se restringem em sua maioria à dependência química e às possibilidades dos fármacos. Invariavelmente os fumantes buscam alternativas que resolvam facilmente seu problema em relação ao cigarro. A dependência química é parte deste processo, para o qual os recursos disponíveis são eficazes e suficientes.

A relevância destes dados em relação ao componente psicológico da dependência precisa ser abordada junto ao fumante e ainda são levados em consideração com pouquíssima freqüência. Estudos já estabeleceram a associação do tratamento farmacológico à abordagem psicológica cognitivo-comportamental em grupo, como o tratamento mais eficaz a ser assumido em programas de cessação. A terapia cognitivo-comportamental tem base científica sendo passível de reprodução em experimentos clínicos. Dois princípios básicos desta abordagem, conhecidos por condicionamento básico e resposta condicionada, vêm do trabalho de Pavlov e outros fisiologistas russos que estudaram e identificaram os princípios do aprendizado da resposta animal. Do mesmo modo, o fumante tem em relação ao cigarro uma “resposta animal”, condicionada e não consciente.

Por serem mais sujeitas aos sintomas de depressão e ansiedade, as mulheres sofrem efeitos psicológicos mais intensos, gerando dificuldades adicionais para que abandonem o hábito de fumar. É comum que as mulheres, com sintomas depressivos, ao tentarem parar de fumar, tenham de tratar a depressão antes de conseguirem abandonar o cigarro. Essa dificuldade adicional pode fazer que o tratamento para a cessação seja prolongado.

Célia Lídia da Costa é psiquiatra e coordenadora do Grupo de Apoio ao Tabagista, do Hospital A. C. Camargo.”

FONTE: REPÓRTER DIÁRIO

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