Nelson Rodrigues sempre ronda o cotidiano do brasileiro. Cotidiano repleto de contradições, onde a sexualidade é uma das mais fortes vertentes. Aí está o plano trágico da obra rodrigueana. Acaba de chegar às livrarias contos inéditos de seu clássico “A Vida Como Ela É…”
O livro reúne textos inéditos publicados no jornal carioca Última Hora, no começo dos anos 1950. Foi da coluna que mantinha no periódico que o escritor tirou os textos do famoso “A Vida Como Ela É…”.
Os contos, que tanto sucesso fizeram, foram escritos no jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer. Nelson já era um dramaturgo consagrado. Tinha criado novas bases para o teatro brasileiro com a montagem de “Vestido de Noiva”, em 1943. Era famoso também por suas crônicas sobre os pequenos dramas e tragédias do cotidiano urbano carioca, escritas no jornal “O Globo”.
Ao receber o convite de Samuel Wainer para escrever “A vida Como Ela É”, histórias baseadas na vida real, Nelson não se fez de rogado. Era, na verdade, o que desejava naquele momento de profundas transformações no jornalismo brasileiro: com o lead, pirâmide invertida, copidesque (“o idiota da objetividade”) e o trágico fim do ponto de exclamação.
O jornal de Wainer fez intensa publicidade antes da estreia da coluna de Nelson na época. Abusou em letras garrafais. Queria seduzir o leitor para o conteúdo das crônicas de Nelson: tragédia, drama, farsa e comédia. Quer dizer, tudo o que não desejava o jornalismo da época repleto de manuais, objetividade, leads e pirâmides invertidas. Era, talvez, o jornalismo de não-ficção. Ou de imaginação mesmo. Se existe este gênero no chamado jornalismo de referência.
A tão esperada coluna de Nelson Rodrigues estreou em 16 de novembro de 1951. A pedido de Samuel Wainer, Nelson retrataria com um toque ficcional histórias policiais. O próprio Nelson explica em uma de suas crônicas.
- Tratava-se de valorizar o fato policial, de dar ao fato policial uma categoria, digamos, assim poética, dramática (…) Alguém, que seria eu, daria ao fato um novo tratamento. Em vez da fixação rotineira, da reportagem meramente objetiva e convencional – uma penetração mais profunda e uma visão mais poética que jornalística.
A coluna de Nelson Rodrigues se tornou o espaço mais lido e popular do jornal de Samuel Wainer. Nelson “falava diretamente ao público, fazendo tremer suas convicções”. O autor de “Vestido de Noiva” nunca gostou de psicanalistas, debochava de Freud, no entanto, seus enredos estão repletos de atos falhos, sonhos, sexualidade, inconsciente. Diariamente, durante 10 anos, ele destilava suas maiores obsessões: a fidelidade, o ciúme, a inveja, a dualidade entre amor e sexo e os dilemas morais.
Logo na primeira crônica – “Não tenho culpa que a vida seja como ela” -, Nelson narra a gênese do trabalho. Depois do acerto do Wainer, do título (um achado para ele) e a conclusão de que exerceria um certo papel de “poeta dramático”, Nelson Rodrigues começou sua incursão num mundo que tanto o excitava.
- O fato policial, seja qual for, representa o grande manancial poético de cada dia. Seja homicídio, cabeça quebrada, atropelamento, adultério, agressão, facada, tiro – não importa. A verdade é que do homicídio ao furto de galinha – a crônica policial tem suas raízes nas grandes paixões humanas, nos problemas eternos de cada homem. Quando o repórter apura uma tragédia em Copacabana – está diante de uma Ana Karenina. E, então, pergunto: por que ignorar a aura trágica que marca a pecadora da vida real e carioca? Por que negar o valor dramático de um simples atropelamento.
Nelson, nunca ligou para o fato do dia. Para ele, a força do acontecimento não estava no mês, dia e hora, mas na sua “substância trágica”. Por isso, muitas vezes narrava uma história que ocorreu no Rio, mas há 30 anos. Outra explicação do autor, talvez para fugir da Justiça. Ele suprimia os verdadeiros nomes e residências de personagens. Mas a justificativa de possíveis processos não era, segundo ele, o real motivo da emissão de nomes verdadeiros.
- Com a eliminação de endereços e nomes reais, a seção atinge, em cheio, um resultado, qual seja o de atenuar a vergonha dos personagens. Ninguém os identificará debaixo do disfarce criado. Só não altero nem falsifico as suas palavras e os seus crimes.
A coluna de Nelson sempre apresentou uma característica: era uma escrita triste. Impossível, segundo Nelson, qualquer disfarce, qualquer sofisma. “Por uma tendência fatal, irresistível, só tratava de paixões, crimes, velórios e adultérios. Criou-se uma dupla situação: sofriam os personagens e também os leitores”.
Ele conta uma história que confirma sua mística numa de suas crônicas. “Um dia um telefone bateu. Voz de mulher, perguntando por mim. Atendo e do outro lado da linha, vem a pergunta. É o senhor que escreve aquela seção “A vida como ela é…?”. Perfeitamente, responde. Continuou a voz: Aqui fala uma leitora. Me diz uma coisa: o senhor é inimigo das mulheres? Caio automaticamente das nuvens. Eu, minha senhora?! Pelo amor de Deus!… A leitora insiste: Então, como é que, nas suas histórias, as mulheres fazem o diabo?”.
Ali estava criado os dramas. As observações não pararam mais. Todos achavam “A vida como ela é” muito triste. Por isso, o sucesso da coluna. Ela se tornou útil pela sua tristeza, imensa e vital. Para o dramaturgo, a pessoa que só tem uma visão da vida unilateral e rósea, “é uma pessoa mutilada”.
“A Vida Como Ela É” tem um subtítulo também em letras garrafais – “Nelson Rodrigues: Não tenho culpa que a vida seja como ela é”. O livro reúne 30 textos inéditos de diferentes fases, nunca publicados. Foram pinçados no baú de Nelson Rodrigues duas preciosidades – “O Broto de 16 Anos” e “Viuvíssima” – assinadas por Suzana Flag, pseudônimo usado por Nelson em folhetins e no seu consultório sentimental.
Apontado pelo público como um tarado, um sádico, Nelson Rodrigues não se sentia incomodado. Dizia trabalhar num universo repleto de sadismo – chegou a chamar o seu teatro de hediondo. Muitas vezes ele defendia-se: “O sexo é a satisfação impossível. O amor é que justifica o fato de o homem ter nascido. Nego a qualquer um o direito de virar as costas à dor alheia. Há uma leviandade atroz na alegria”.
Desde a Grécia a tragédia é parte integrante da realidade social e a experiência do trágico é um elemento fundamental na vida do individual. Nas crônicas e no teatro de Nelson Rodrigues, o espectador se descobre, ele mesmo, um enigma, pois põe em questão as certezas e os limites da vida humana. O questionamento do homem e seu destino trágico é uma constante na obra rodrigueana Por isso, tanto sucesso. Tantas reedições. Tanta falta faz Nelson. Hoje, com a implantação da violência urbana cada vez mais atroz, o aspecto trágico da vida se desenrola num ritmo mais dramático do que nos inocentes anos 50 de “A Vida Como Ela é”.Tanta falta faz Nelson.

CRÔNICAS
“Não tenho culpa que a vida seja com ela é”
Nelson Rodrigues
R$ 44,90
264 páginas
2009
AGIR
JOSE ANDERSON SANDES
EDITOR DO CADERNO 3 do DIÁRIO DO NORDESTE
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