Arquivo de julho, 2007

… do encontro faltoso

Publicado: segunda-feira, 30 julho, 2007 em comportamento, Lacan, psicanálise

Antigamente era o namoro no portão que não era suficiente. Atualmente é o sexo no primeiro encontro que é considerado excesso. Por quê o ser humano diante da falta excessiva muda o jogo para um excesso faltoso? Sim! Um excesso que comporta a falta. Não é disso que se queixam os jovens hoje em dia? Falta romance, falta conquista, falta jogo de sedução, sobra intimidade artificial, sobra desrespeito, falta companheirismo, falta cumplicidade… essas e outras queixas – variações do mesmo tema – norteiam os discursos dos que buscam uma análise.

O encontro com o outro sexo sempre foi um enigma. E permanece sendo até hoje mesmo com uma liberdade sexual maior. Porque a questão não é apenas o real do corpo, mas o tentar decifrar ‘o quê o outro quer de mim’. Não é a toa que Lacan profere a frase: não há relação sexual. Na questão corporal, todos nós sabemos que há, e tiramos – na melhor das hipóteses – muito prazer no encontro dos corpos. Mas se fosse tão simples e completo, não precisaria de um novo coito, ou ainda, não causaria a interminável ressaca moral após uma one night stand com uma outra pessoa.

Há algo que escapa em meio a tanta tentativa de se aproximar da chave do enigma. Se há equilíbrio nessa aproximação? Algo entre o namoro no portão e o sexo no primeiro encontro? Certamente não! Cada relacionamento tem seu código, sua experiência. O importante é se dar conta que o ‘se aproximar’ é o melhor da história.

Flávia Albuquerque – psicanalista fmaa@uol.com.br (21) 9792-8326

Verdadeiras páginas da vida*

Publicado: quarta-feira, 25 julho, 2007 em comportamento, desejo, psicanálise

 

Segunda-feira, dia 10 de Julho, estava eu, como muitos outros telespectadores assíduos, em frente à telinha a espera do primeiro capítulo de mais uma novela de Manoel Carlos, sucesso tido como garantido no horário nobre, Páginas da Vida. Em meio às primeiras cenas, forçadas com o intuito de contar um pouco da história de cada personagem, uma me chamou a atenção. Não era nenhuma novidade o que se apresentava ali. Pelo contrário! Era o mais comum de um cotidiano. Vou relatá-la: Marta, personagem vivida pela atriz Lilia Cabral, chega no andar em que mora, após ter discutido com o marido e, de quebra, ter incluído o filho na discussão. Encontra a vizinha saindo do apartamento ao lado, comentando que estava indo ao aniversário do sogro. O marido da vizinha, com o sorriso largo, carinhoso com a esposa, aparece para completar a cena. Se despedem calorosamente, mandando lembranças à família uma da outra e, logo depois, Marta finalmente entra em seu apartamento. Na cena seguinte, ela está sentada no sofá, com lágrimas correndo, se queixando, com o filho, que sentia uma dor imensa ao ver os outros numa harmonis tão perfeita em família enquanto a dela estava desestruturada. Acontece que minutos depois, aparece o ‘casal harmonioso de família perfeita’ na tal comemoração de anviersário em que fica evidente uma série de… imperfeições. Traições, intrigas, interesses, entre tantos outros.

Por quê insistimos em achar – como se diz no senso comum – a grama do vizinho mais verde? O quê fica escamoteado na ilusão de olhos que só vêem o que querem, ou mesmo o que podem, diante de uma imagem enganosa? Aprendemos que roupa suja se lava em casa, pois o que acontece entre 4 paredes só diz respeito a quem ali vive. São tantos os ditados populares que envolvem uma relação em família que nos faz, no mínimo, pensar que isso é mais comum do que notamos.

Temos a terrível mania de acreditar que a perfeição existe. E de que ela se manifesta numa relação entre irmãos, pais e filhos, homens e mulheres. Será que estamos correndo atrás de um fracasso? Porque é o que encontramos quando nos submetemos a viver em ‘harmonia’. É preciso ter maturidade para encarar que a imperfeição é inevitável. Mais do que isso! É constitutiva. É porque ela existe que temos desejos, sonhos, planos, ideais, projetos. Se não houvesse um obstáculo que fosse, um buraco, uma falta, um furo, de onde nasceria o desejo? Desejo de ser mais, desejo de ter mais, desejo de dar mais, desejo de receber mais, desejo de sempre mais e mais. Se nossas famílias não tivessem os problemas do cotidiano, e até os mais graves que cada uma tem, qual o propósito de querermos constituir uma família? Uma família a qual apostamos que será do jeitinho que queremos, com o(a) parceiro(a) que escolhemos, com o filho que idealizamos. É porque alguma coisa na família anteriorcapengou que queremos construir uma nova.

Se pensarmos no que está em jogo nessas relações, chegaremos à conclusão de que não é nada além do amor. Sim! O amor de escolha do(a) parceiro(a), amor de um mesmo sangue que corre nas veias, amor por honrar o nome da família, amor pela obediência, pela ordem e hierarquia – porque não? Mesmo quando o que sem anifesta é o ódio, ainda assim se trata de amor. É a outra face de uma mesma moeda. Porque para odiar – e dispor de tempo para ficar fazendo uma verdadeira manutenção daquele ódio – é preciso muito amor!

É preciso começar a aprender a fazer (bom) uso desses impasses familiares. Uma discussão, uma conversa, uma fala cortante, um olhar atravessado, uma voz mais rude podem e devem ser materiais preciosos. É preciso, ainda, escutar um pouco mais, se permitir falar algumas coisas e tentar elaborar, minimamente, o que já faz parte, queira ou não de uma história  que é sua e que não é sem outros. Mas nos ocupamos em nos aprisionar numa teia de imagens que velam uma outra realidade que os outros – tidos para nós como felizes, bem sucedidos e perfeitos – vivem. Porque eles não são de outro planeta. São de um mesmo mundo que o seu em que a comunicação é baseada no mal entendido, em que o encontro entre um e outro é sempre faltoso, mas nem por isso, menos fascinante! É preciso ter coragem para amar, porque aprender a fazê-lo envolve, sobretudo, amar as diferenças e usá-las como bagagem de uma história que é escrita por você.

 

* texto escrito em jul/06

 

Flávia Albuquerque

fmaa@uol.com.br (21) 9792-8326

O especial de férias – julho 2007

Publicado: terça-feira, 24 julho, 2007 em estudo, Freud, psicanálise

Nesta quarta, dia 25 de Julho, das 14:00 às 17:00, acontece o último Especial de Férias com o texto O futuro de uma ilusão do volume XXI das Obras Completas de Freud.

A cada quarta-feira do mês de julho, reuni em meu consultório estudantes de psicologia, psiquiatra e leigos no estudo da psicanálise para leitura e discussão dos textos de Freud: Psicanálise Selvagem, Construções em Análise, O Estranho. O intuito era abordar textos freudianos mais curtos como uma prévia do estudo teórico fora do âmbito universitário. O tempo dispensado a cada texto foi, de certa forma, corrido. Mas fez incluir uma falta indispensável para inaugurar um desejo a respeito do estudo da psicanálise demonstrando a importância de estudar com os pares viabilizando a circulação de saber tão fundamental para o bom uso da teoria psicanalítica. Pude perceber isto pelas incrições dos participantes deste evento nos cursos que proponho e pelo interesse de se engajar em grupos de estudo nos quais torna-se possível uma elaboração mais aprofundada da teoria e da prática analítica.

Quem tiver interesse pela última edição, entre em contato por e-mail (fmaa@uol.com.br) ou telefone (21) 9792-8326 e reserve sua vaga. O investimento é de R$ 15,00 e o encontro acontece em Icaraí – Niterói – RJ. 

O mal-estar no visual

Publicado: segunda-feira, 23 julho, 2007 em comportamento, Freud, psicanálise

Na atual sociedade em que vivemos, com o subentendido lema de ‘seja belo e consuma’, o corpo se insere no mercado primordialmente como capacidade de consumir e ser consumido. Vivemos em um crítico momento em que vigora a padronização de comportamentos onde o corpo se encontra como máquina de dor e prazer para responder à exigência maciça de permanecer jovem e belo.Tal promessa de juventude eterna acaba por nos reduzir aos quilos de nossos corpos e às curvas de nossas silhuetas. Os que não respondem ao modelo atual ‘sarado’, seios siliconados, ‘barriga tábua’, quilos abaixo da média estão desabrigados na ‘sociedade do espetáculo’ em que só desfilam os que ostentam imagem de sucesso.

A televisão é um desfile de corpos ditos perfeitos com peças de roupas ditadas pela moda tendo um apelo estético fora do alcance dos pobres mortais: meninas cada vez mais jovens nos afrontam com sua magreza indecente desafiando a morte. O que se consegue, por exemplo, ao ler uma revista de beleza é sentir-se feio, tamanha a diversidade de propostas de mudança corporal que ali se encontram. Em virtude desse ideal estético, muitos se submetem a inúmeras plásticas, cirurgias de redução de estômago, se entregam às anfetaminas ou desencadeiam distúrbios alimentares causando uma verdadeira mutilação no próprio corpo, tornando-os masoquistas por imposição. Tamanha maratona tem um único objetivo: ser aceito por uma sociedade atual, portadora de olhares exigentes, que vive no engodo excessivo, para além da ilusão fundamental que uma imagem qualquer já transmite.

É notória a ‘conspiração’ da indústria da beleza aliada aos meios de comunicação de massa em busca de cifras a serem gastas com cosméticos, plásticas, vestuário e academias de ginástica. A mídia banalizou valores e sexualidade usando imagens ideativas alimentando um falso ideal de completude num verdadeiro culto ao corpo. Essa reivindicação normativa oferece uma crença, uma ilusão de uma felicidade inexistente transformando o homem de hoje no contrário de um sujeito. Quanto mais a sociedade se encerra na lógica narcísica, em que transforma os homens em objeto, mais foge da idéia de subjetividade. Afinal, em que momento o desejo poderá emergir no meio de tanto tempo gasto para satisfazer a demanda alheia deveras exigente?

Como um simples objeto de consumo na sociedade contemporânea, o sujeito é visto apenas como um corpo que existe somente para consumir e ser consumido. Afinal, o voyeur é também um exibicionista, como bem especificou Freud: na satisfação que se tem de olhar, ele também se colocará na posição de ser olhado.

Muitas vezes o sujeito reconhece sua alimentação incorreta e vive num ciclo vicioso de culpa, raiva e depressão. Não é à toa que uma bulimia consiste em comer o que se tem vontade e depois eliminar tudo o que foi ingerido, experimentando uma verdadeira ressaca moral.

A maior doença do ser humano é querer ser amado, o que, no contexto social em que vivemos, infelizmente significa, para muitas pessoas, aderir a padrões de beleza utópicos. Essa necessidade de ser aceito faz com que o sujeito coloque seu ideal acima do respeito a si mesmo, ao seu próprio corpo, sob o risco de ser condenado a sentir-se deficiente ou deformado. Quanto mais a sociedade apregoa a padronização, a igualdade de todos, mais ela acentua as diferenças. Condenado ao esgotamento pela falta de uma aceitação, o sujeito busca no ‘culto ao corpo’ o ideal de uma felicidade impossível.

As anfetaminas não fazem nada além de suspender sintomas de obesidade ou sedentarismo. Elas fabricam um novo homem que coloca de lado seus desejos, se sente envergonhado por não corresponder ao ideal imposto e passa a viver alienado à cura da própria essência da condição humana. Quanto mais se objetiva o fim do sofrimento psíquico através da ingestão de remédios, mais o sujeito decepcionado com as ‘soluções’ apenas momentâneas, volta-se para os consultórios analíticos.

Se hoje a psicanálise concorre com essas promessas de ideal é porque os próprios pacientes percebem que o orgânico é, muitas vezes, causado pelos sintomas psíquicos e passam a preferir falar de seus sofrimentos a se entregar a tal exigência de padronização sem se questionar o que está em jogo. Verbalizam o sofrimento para, ao menos, procurar saber de sua origem.

O que não faltam são orientações de médicos e especialistas na área nutricional e esportiva a respeito de uma melhor qualidade de vida em termos de saúde. Mas não há regra para melhor qualidade de vida psíquica. E ignorar que a saúde mental tenha interferência na saúde corporal é, no mínimo, preocupante. Hoje em dia, viver o melhor possível, significa sobreviver o menos pior possível. A psicanálise, após mais de 1 século de sua invenção, permanece em vigor, numa insistência de que o sujeito viva num constante questionamento contra uma alienação devastadora.  

Flávia Albuquerque

fmaa@uol.com.br

Início – ou ainda – Instante de ver

Publicado: segunda-feira, 16 julho, 2007 em início

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Inicio aqui uma página onde vocês poderão ter acesso à programação dos Estudos em Psicanálise que ofereço e, vez ou outra, textos de minha autoria.

Sejam bem-vindos!