Arquivo de agosto, 2007

Vivo

Publicado: segunda-feira, 20 agosto, 2007 em psicanálise

“Não feito, não perfeito, não completo, não satisfeito nunca, não contente, não acabado, não definitivo, eis aqui um vivo, eis-me aqui.”

Lenine

A alma desnuda

Publicado: quarta-feira, 15 agosto, 2007 em Alma Imoral, psicanálise

 Clarice Niskier chega pela platéia. Como quem vem mostrar que a alma, escrita por Nilton Bonder – e encenada pela própria – dita como imoral, habita em todos ali sentados, e ainda mais nos que estão fora do teatro alheios ao acontecimento instigante que estava para acontecer no palco.O figurino é seu próprio corpo, que ao se despir do longo pano preto que o contorna, perde as atenções em pouquíssimos minutos mesmo permanecendo exposto ao longo de todo o espetáculo. Longe dos olhos de ver, mas através dos olhos de se entreter a nudez presenciada é a da alma. Alma esta que Clarice não tem pudor em exibi-la ao longo de quase 2 horas em cena.

A encenação de A Alma Imoral passeia pelo texto homônimo de Bonder, um rabino, que propõe no livro um diálogo entre a psicologia evolucionista – originada pela teoria de Darwin – e sua doutrina religiosa: o judaísmo. Num convite a rever conceitos dialéticos como certo e errado, obediência e desobediência, fidelidade e traição – não sem fazer uma lógica entre traição e tradição muito além do neologismo mas num pensamento análogo ao de uma formação do inconsciente – se torna possível entender que a Psicanálise não poderia ter sido inventada por outro que não um judeu (sem Deus!) como Freud. A ética do desejo, considerada pelo seu próprio inventor como a peste, causa, ainda hoje, após pouco mais de 100 anos, um certo repúdio ao fazer surgir um homem de desejo numa civilização que tende a mortificar o sujeito como conseqüência de uma moral em que a covardia da renúncia prevalece.

‘Não há nudez na natureza!’ É o que se ouve pela boca da atriz ao dar início à peça. No texto – que passou a ser também da atriz ao ter sido concedida (declaradamente) uma inteligente liberdade pelo autor – afirma-se que nossa tarefa é maior do que simplesmente o que nos foi legado: ‘crescei e multiplicai-vos’, mas também – e fundamentalmente – transcender a nós mesmos, romper limites, num certo movimento transgressor que nos faz avançar. Não vem a psicanálise com esse propósito? Que o sujeito, que se reconhece sofredor na dor de existir, possa não exatamente se desvencilhar de seu sintoma com o qual ele certamente goza, mas estar avisado em que condições ele deseja e fazer bom uso de suas frustrações podendo fazer escolhas e mudar de posição diante da demanda aprisionante do Outro?

Quando Freud deu plenos poderes à palavra oferecendo escuta às suas históricas histéricas, ele se permitiu olhar para além do corpo acometido por sintomas que não se explicavam em exames clínicos. Estas mulheres ensinaram ao pai da Psicanálise que seus sofrimentos tinham raízes nos investimentos amorosos, leis e faltas (ou excessos, que comportam a falta da falta) ofertadas por seus cuidadores e carregam marcas de uma história em plena elaboração. Nesse engajamento, nosso querido austríaco pôde descobrir o inconsciente. E o mundo, por mais que neguem, não é o mesmo após esta descoberta. Foi numa subversão do cogito cartesiano que Freud pôde trazer à tona o sujeito do inconsciente. Ao ‘penso, logo sou’ de Descartes, deu como resposta o ‘penso (ser), onde não sou’, postulando desta maneira que o ser humano é governado pelo sujeito do inconsciente.

Quando nos remetemos ao livro de Nilton Bonder, encontramos ainda mais material para nosso deleite. Nilton sublinha que procriar é o único mandamento positivo no texto bíblico, mas inaugura uma linha de pensamento em quem o lê dizendo que, junto a isso, existe uma outra dimensão da natureza humana que antecede a própria consciência: sua natureza transgressora. Ao mencionar o texto bíblico, vale lembrar que quem tem uma mínima leitura da obra de Freud, conhece sua célebre frase: ‘a religião é a neurose obsessiva da humanidade’. Considerando a religião como algo que tem a função de lei, com Deus Pai Todo Poderoso, e pegando carona no destaque em questão do livro A Alma Imoral, lembramos do lugar do pai para a psicanálise. O mesmo pai que interdita o gozo, permite gozar. Não é o supereu, a própria instância da lei, quem obriga a gozar? Eis o imperativo do gozo: ‘goza!’. Bonder ainda escreve: ‘o ser humano é talvez a maior metáfora da própria evolução, cuja tarefa é transgredir algo estabelecido.’[1] É porque algo é proibido que é possível ser permitido. Quando nada é proibido, certamente nada será permitido. Lógica que se insere no não saber o que fazer com a liberdade que tanto se pediu. Tanto que a liberdade, extremamente ilusória, gera depressões e inibições demonstrando que a não proibição não trouxe consigo uma permissão para usufruir.

Para finalizar, vale dizer que Clarice Niskier leva com muita categoria e sabedoria o imoral da alma ao teatro. Coloca em cena os impasses comuns a uma ‘espécie’ submetida à linguagem como o humano. ‘Haverá maior solidão do que a ausência de si?’ – questiona Clarice em um momento da peça fazendo o público pensar e construir seu próprio texto, cada vez mais íntimo, desfilando por suas questões, medos e anseios. Convite semelhante ao que o analista faz ao analisando que em seu divã deita. Lugar de devolução da pergunta do neurótico inaugurando um terreno mais fértil onde o sujeito possa cultivar suas elaborações de uma vida que está em pleno acontecimento e não pára a tempo de recuperar o fôlego. 

Flávia Albuquerque é psicanalista   fmaa@uol.com.br  

ilustração

Publicado: quarta-feira, 8 agosto, 2007 em psicanálise

“… aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber; é essa a minha maior humildade, …”

Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem p. 20

A linguagem esquecida dos sintomas

Publicado: segunda-feira, 6 agosto, 2007 em comportamento, desejo, Freud, psicanálise

 

A quantidade de diagnósticos e remédios nunca foi tão numerosa quanto na atualidade. Desde transtornos, que encerram o sujeito numa verdade que se estabelece como indiscutível entre médico e paciente, até medicamentos que bloqueiam uma possibilidade de manter sintomas necessários para o questionamento fundamental: ‘a que servem na vida do sujeito queixoso?’.

Sintomas comuns como apresentar atitudes que se repetem, rituais que se tornam sagrados a ponto do sujeito não conseguir deles se libertar, o uso de substâncias químicas que funcionam como um apoio indispensável, ou mesmo cuidados com o corpo que beiram o excesso são vistos como uma emergência de cura sem antes serem questionados.

A psicanálise vem recolocar em cena a condição humana: estar submetido à linguagem. Esta linguagem na qual o sujeito se insere é transmitida por aqueles que o antecedem. O bebê é falado pela mãe e pelo pai ainda no momento anterior à sua concepção e permanece ‘sendo falado’ ao longo da gestação, nascimento e vida. Esta fala é impregnada de desejos e possibilita inaugurar no infans um sujeito de desejo. Certas falas terão peso de verdade para o sujeito em constituição com a ressalva de que não virão atreladas apenas a sentidos dados pelos locutores em questão, mas serão adicionadas de sentidos que o próprio sujeito poderá construir. Com isso, é preciso lembrar do que Freud insistia em dizer a seus leitores: é preciso tomar cada caso como único.

Não há exame clínico que possa dar conta do diagnóstico dos males da alma ou da dor de existir, como preferirem. O psicanalista lança mão da fala por saber que o diagnóstico é, sobretudo, um efeito da linguagem. Até os nomes dados aos medicamentos podem somar a uma afirmação como esta. Estão a venda remédios para controlar a hiperatividade ou o aumento de peso com nomes bastante sugestivos. O paciente consome além da substância uma mesma ou maior dosagem do significante que a pílula carrega. Fato este confirmado com a eficiência dos placebos que atingem o efeito esperado a partir de sugestão através… da linguagem.

Para as ‘mazelas’ modernas que se apresentam cada vez mais numerosas, demandam-se soluções rápidas. Afinal, daqui a alguns dias haverá outras e as anteriores precisam ser curadas. Na carona desta urgência, revistas e jornais – dos mais lidos – convocam profissionais com a tarefa de informar com a máxima clareza a respeito das patologias atuais. Tudo o que se consegue com matérias de títulos bombásticos, tabelas que listam fenômenos muitas vezes corriqueiros na vida da maioria das pessoas, é encerrar o sujeito na constatação de que ele É uma doença – na melhor das hipóteses, apenas 1.

Lidar com o sujeito de uma forma padronizada e fenomenológica é ficar engessado em um saber que não se constrói além do constatado. É acreditar que o humano possui instinto como algo padronizado e comum aos semelhantes exatamente como ocorre com os animais, sem considerar que toda necessidade humana, seja ela qual for, vem carregada de desejo. Afinal, temos fome, mas como bem questionaram os Titãs: ‘você tem fome de quê?’ Há uma escuta que precisa ser privilegiada para dar lugar à importância das leis da linguagem as quais o humano está submetido. Os sintomas podem ser semelhantes assim como os significantes ofertados, mas o uso que se faz deles são como os significados: incontáveis.

Buscar um saber para além do corpo é se reconhecer único. É trazer à tona a diferença fundamental normalmente escamoteada pela cobrança de uma igualdade burra dentro de uma sociedade que privilegia a imagem em diversos sentidos. É preciso lembrar que a imagem é enganosa. O que parece ser uma solução rápida pode estar, muitas vezes, servindo de alimento a um mal maior.

 

Flávia Albuquerque – psicanalista fmaa@uol.com.br ou (21) 97928326