Arquivo de setembro, 2007

Mais, ainda

Publicado: quarta-feira, 26 setembro, 2007 em desejo, Freud, inconsciente, Lacan, psicanálise, sujeito

Agradeço aos comentários e e-mails que recebi sobre o último post. Venho acrescentar algo.

Não é que a Psicanálise não se submeta à leis, ela se submete, mas essas leis são [re]calcadas no inconsciente que é subversivo por natureza. A descoberta freudiana é conhecida como uma das feridas narcísicas. Quando Freud declara que o homem não é senhor da sua própria casa, ele coloca em cena o sujeito do inconsciente, ou seja, do desejo. Desejo esse que se difere da demanda consciente do ‘quero isso, não quero aquilo‘. Lacan já dizia que o querer não é homogêneo ao desejo. Essa diferença radical impossibilita que o analista case a condução de uma análise com as intervenções de uma outra prática. Está para além da lei de ‘ser proibido‘, mas põe em jogo uma incompatibilidade.

Por exemplo: se o inconsciente é atemporal e não cessa de insistir, não há como estabelecer um  tempo no que tange a um tratamento breve ou sessões de minutos pré-determinados. Se a religião lida com leis que envolve perdão, dar para receber, fazer o bem sem olhar a quem, como chegar ao mais íntimo e perverso do sujeito que carrega consigo o ódio, a vingança, o rancor e lida com a frustração constante de se dar conta de que não há troca, ou seja, nada que foi dado será recebido em troca? Se é isso que interessa numa análise, não há porque fazer o sujeito se envergonhar desses sentimentos ou pedir perdão por eles e tentar ser alguém com sentimentos mais nobres. Como delegar a razão de ser como se é aos astros, à entidades, e energia cósmica se o que se propõe numa análise é fazer com que o sujeito se responsabilize e se reconheça como quem traça seu caminho? Como responder ao Eu que é pura máscara, como algo que engana e portanto culmina no fracasso?

A Psicanálise acontece no caso a caso. Nenhum caso clínico é igual ao outro. Não há causa e efeito garantidos. Mais um ponto que a faz se diferenciar da ciência.

Cada analista tem que reinventar a Psicanálise em sua clínica, mas no sentido de se permitir a escutar o novo, e não no sentido de lidar com essa escuta de maneira padronizada como o que serve para um paciente, serve para outro. E essa invenção não pode apontar uma esquizofrenia: um pouco daqui, um pouco dali, como uma colcha de retalhos confeccionada de pedaços soltos de teorias e práticas diversas.

Uma coisa é achar que um caminho é bom, outra coisa é achar que um caminho é o único. A Psicanálise nunca se pretendeu para todos. Há os que dificilmente entrarão no discurso analítico – para não falar jamais. Entrar no discurso analítico implica em acreditar no funcionamento do inconsciente e se render ao seu saber. É uma escolha. E como toda escolha é preciso abrir mão de outras que não vêm no mesmo pacote. Há muitos outros caminhos, esse é apenas um. Há lugar para todos, mas é preciso ter cuidado com os atalhos que podem disvirtuar de uma maneira tal que quando se dá conta, percebe que saiu por completo do caminho que julgou ter estado.

Toda escolha é cara e comporta uma perda. Para escolher e seguir rumo ao desejo é preciso ter coragem para perder.

Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326 ou fmaa@uol.com.br

Me pergunto o que escreveria Freud em seu artigo Psicanálise Selvagem se presenciasse o (mau) uso que fazem da Psicanálise atualmente.

É assustador o número de instituições oferecendo cursos com a garantia de uma prática clínica aos que neles se matriculam chegando ao absurdo de oferecer um documento – que nunca existiu na história da Psicanálise – como ‘prova’ de tal prática. Na carona destas instituições, muitas pessoas oferecem escuta se dizendo psicanalista, e o paciente, na sua ignorância sem culpa, fica a mercê de fracassos – na melhor das hipóteses – ou, muito freqüentemente, sofrem danos irreparáveis.

É sabido – não por todos, já que ainda há os que acreditam que somente psicólogos e/ou médicos podem exercer a Psicanálise – que não há uma graduação que funcione como um pré-requisito para ser um psicanalista. Mas esse distanciamento entre a universidade e a formação psicanalítica não pode ser mal interpretado a ponto da Psicanálise ser levada num tom descomprometido. Por exemplo, uma propaganda do tipo ‘tenha uma renda extra com psicanálise, sua nova profissão’ é uma afronta à prática analítica que se pretende séria e demanda investimento e dedicação constante.

O fato de se insistir que a formação psicanalítica seja diferenciada de uma formação acadêmica tem sua razão e ela não é qualquer. A Psicanálise se direciona ao saber inconsciente. Saber este que não se aprende, mas se experimenta. A invenção freudiana não é uma ciência, posto que a ciência visa alcançar uma verdade absoluta e imutável. Para a Psicanálise toda a verdade é meia já que se trata da verdade inconsciente que comporta necessariamente uma falta. E, além do mais, Psicanálise é uma ética e não uma profissão. Tanto que não há um regulamento com leis que possam dar conta de sua prática. Todas as tentativas em regulamentá-la felizmente foram fracassadas, e se depender dos psicanalistas ela jamais será regulamentada. Pois qualquer lei engessaria a práxis psicanalítica impossibilitando que ela se realize de acordo com o funcionamento do inconsciente que comporta suas próprias leis. Portanto, uma instituição que oferece um documento (diploma, carteira) que garanta o exercício da Psicanálise precisa, no mínimo, ser questionada.

A respeito da formação universitária – graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado… – nada ter a ver com uma condição para exercer a Psicanálise, cito Freud em A questão da análise leiga: ‘Talvez venha a acontecer (…) que os leigos não sejam realmente leigos, e que os médicos não tenham exatamente as mesmas qualidades que se teria o direito de esperar deles’. Portanto não é a formação acadêmica que vai decidir se alguém está apto a ocupar o lugar de analista. Pode parecer ser terra de ninguém, mas embora qualquer um possa fazer a formação de analista não significa que um qualquer possa. E isso faz toda a diferença.

Freud em seu texto Análise terminável e interminável toca na questão da formação: ‘onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações de que necessitará em sua profissão? A resposta é: na análise de si mesmo, com a qual começa sua preparação para a futura atividade.’ Ou seja, o Pai da Psicanálise é pontual quando declara que esse é o passo inicial indispensável a ser dado por quem deseja fazer uma clínica psicanalítica. É avançando no saber de seu próprio inconsciente que se é possível conduzir uma análise de um outro que, por sua vez, vai trilhar o seu caminho em direção à sua própria verdade. Mas apenas se submeter à análise não é tudo, é preciso ainda se engajar em um estudo teórico constante com outros pares e fazer supervisão dos casos clínicos. Esse é o tripé clássico fundamental para que se ‘forme’ um psicanalista. E aqui coloco ‘forme’ entre aspas pois é imoportante frisar que, na verdade, ele estará sempre em formação. O que impede radicalmente que o simples cumprimento de uma carga horária garanta o exercício da ética psicanalítica.

Lacan, como não podia deixar de ser a partir de seu retorno a Freud, sempre se propôs a pensar e repensar a questão da formação. Ele dizia que ‘o analista só se autoriza pos si mesmo e por alguns outros’. Entendendo, minimamente, esses ‘outros’ como os pares, o psicanalista que o conduz em análise e os próprios pacientes que o reconhecem como tal e o sustentam no lugar de analista.

Por fim, não há problema em se oferecer cursos de psicanálise – até porque isso alimenta o estudo teórico essencial na formação. A crítica irredutível é quanto à garantia da permissão de clinicar através dos mesmos. Isso sim é perigoso e beira o charlatanismo. E eu nem me ocupei em dissertar sobre o inadmissível fato dos que ocupam cargos religiosos e misturam religião com Psicanálise em suas práticas…

E quanto àquele que não tem a intenção de seguir o percurso psicanalítico como prática, mas deseja fazer uma análise? Qual o cuidado necessário para que não corra o perigo de cair nas mãos de um ‘falso’ psicanalista? A verdade é que garantia não há, mas é preciso ficar atento aos que se oferecem como psicanalista dentre outras práticas. Quem se diz ser tantas coisas, nada é efetivamente. Mesmo porque fica inviável uma prática psicanalítica junto com outras visto que a Psicanálise carrega uma singularidade por conta do seu compromisso com o saber inconsciente que, ao ser descoberto por Freud, trouxe consigo um teor totalmente subversivo.

Quem quiser e estiver apto a praticar psicoterapia, escuta religiosa, hipnose, misticismo entre outras coisas, deve fazê-lo defendendo com unhas e dentes sua prática se preocupando em exercê-la bem e será reconhecido. Mas não pode se nomear psicanalista.

‘O QUE SE ESPERA DE UM PSICANALISTA É PSICANÁLISE.’ Jacques Lacan.

Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326 ou fmaa@uol.com.br

Em 5 de Agosto último, foi publicado em uma revista do Jornal O Globo um reportagem com Judith Miller – filha de Jacques Lacan – sobre o novo projeto de sua associação: ‘tratamento psicanalítico de curta duração’ para os pobres.

Obviamente a publicação gerou polêmica! Não tem o tempo e o pagamento um outro lugar – que não o do senso-comum – num percurso analítico? O conhecido tempo lógico lacaniano, fazendo ressituar o sujeito na lógica inconsciente que é a da linguagem, e o pagamento como uma maneira de abrir mão do gozo para aceder ao desejo. Ou seja, o time is money não funciona no setting analítico. Não é pelo tempo da sessão que se paga uma análise. Há que se dar a libra de carne dolorosamente para se aproximar do saber inconsciente que faz do sujeito desejante.

Recebi um e-mail encaminhado com o texto enviado por Antonio Quinet – renomado psicanalista – ao Jornal que vinculou a reportagem. Não colocarei aqui na íntegra, mas grifarei algumas partes que julgo importantes. (Quem desejar ler tanto a reportagem completa quanto o texto integral de A. Q., mandar um e-mail para fmaa@uol.com.br solicitando)

Segue:

‘Para os ricos, a psicanálise continua a mesma: terminável e interminável, problematizando, como queria Freud, seu tempo da duração que é o tempo da subjetividade (…) Ao propor duas psicanálises, à imagem e semelhança de duas justiças – a de rico e a de pobre – Miller desacredita a psicanálise de sua seriedade. Triste destino da psicanálise se ficasse nas mãos das filhas dos grandes analistas: Anna Freud reduzindo-a ao tratamento do ego e Judith Miller cortando-a em duas duvidosas fatias: uma terapia breve e grátis para os pobres e uma longa e paga para os ricos. (…) Se os adeptos desse grupo estão propondo uma terapia breve, eles têm todo o direito, mas não se trata mais de psicanálise. Todas as tentativas de Freud de fixar o tempo de uma análise fracassaram quando não causaram dano maior ao paciente (…) A entrada em análise depende do estabelecimento da transferência e da abertura do Inconsciente propiciado pelo ato analítico. Não há como prever o tempo de entrevista prévia e necessária a essa entrada. (…) À pergunta sobre qual será a duração do tratamento analítico a única respota verdadeira continua sendo a pronunciada por Freud: ‘Ande!’ (…) Chamar essa terapia de psicanálise é desconsiderar que o sujeito do Inconsciente está também presente com seus desejos e sintomas nas classes mais desfavorecidas, oferecendo para eles esse tipo de tratamento que é um engodo. O preconceito é classificar os inconscientes segundo a classe social em nome de uma caridade. (…) O analista a partir de seu ato com a oferta cria a demanda de uma análise independente do bolso do sujeito. Padronizar uma psicanálise a curto prazo é ir contra toda a luta de Lacan contra os padrões estabelecidos e burocratizados que impedem a psicanálise de se exercer na sua criatividade e singularidade de cada ato analítico. O contrato é contra o ato.’

Vale lembrar que Freud dizia que se há sujeito inanalisável, esse sujeito é o rico que acredita ter tudo e não permite que a falta compareça. Um analista não nega análise a um menos favorecido! O que ele não pode é conduzir uma análise gratuita, pois estaria negligenciando um material essencial na tentativa de dar conta da economia psíquica do sujeito, entre outras questões.

Flávia Albuquerque – psicanalista – (21) 9792-8326 – fmaa@uol.com.br

Clarice e a linguagem

Publicado: terça-feira, 18 setembro, 2007 em inconsciente, lacaniano(a), linguagem, psicanálise, sujeito

  ‘A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.’

 C.L. A paixão segundo G.H. pág. 176 – editora Rocco

Textos Publicados

Publicado: segunda-feira, 3 setembro, 2007 em estudo, Freud, inconsciente, Lacan, psicanálise

Links para 3 textos publicados:

http://www.escolalacaniana.com.br/bbli/niteroi1/n13.pdf
http://www.escolalacaniana.com.br/bbli/niteroi2/n2flavia.pdf
http://www.escolalacaniana.com.br/bbli/ato/atoflavia.pdf
Flávia Albuquerque - psicanalista (21) 9792-8326 fmaa@uol.com.br