Arquivo de novembro, 2008

claudelevistrauusReportagem do site: G1.com.br

“ANTROPÓLOGO É O PAI DO ESTRUTURALISMO NA FILOSOFIA E SOCIOLOGIA. FRANCÊS VIVEU COM ÍNDIOS NA AMAZÔNIA E MATO GROSSO.”

Claude Lévi-Strauss, um dos intelectuais mais relevantes do século 20, destacado antropólogo  pai do enfoque estruturalista, que influiu de maneira decisiva na filosofia, na sociologia, na história e na teoria literária, completa nesta sexta-feira (28 – hoje) 100 anos de vida.

Apesar de sua longevidade e intensa atividade intelectual desde antes da 2ª Guerra Mundial, Lévi-Strauss, membro da Academia da França desde 1973, goza de boa saúde e se mantém lúcido, como relatou à imprensa Stéphanie Martin, diretor do museu Quai Branly de Paris, instituição que abriga um teatro com o nome do célebre antropólogo.

Francês, ainda que nascido em Bruxelas (Bélgica) em 28 de novembro de 1908, este centenário humanista é filho de um judeu agnóstico de origem  alsaciana que o educou em um ambiente artístico, embora tenha terminado cursando Direito e Filosofia na Sorbonne de Paris.

O autor de ‘Mitologias’ lecionou como professor desta última disciplina até receber um convite de Marcel Mauss, pai da etnologia francesa, para ingressar no recém-criado departamento de atnografia.

Foi assim que despertou em Lévi-Strauss a curiosidade por um campo do conhecimento no qual desenvolveria uma brilhante carreira e que lhe concedeu um ‘lugar proeminente entre os pequisadores do século 20’, explicou à Agência Efe o professor de Antropologia Social da Universidade Complutense de Madri Rafael Diaz Maderuelo.

NA AMAZÔNIA

Sua nova vocação o levou a aceitar um posto como professor visitante na Universidade São Paulo (USP), de 1935 a 1939, estadia que lhe possibilitou  realizar trabalhos de campo no Mato Grosso e na Amazônia.

Ali teve estadias esporádicas entre os índios bororós, nambikwaras e tupis-kawahib, experiências que o orientam definitivamente como profissional de antropologia, campo no qual seu trabalho ainda hoje ‘continua sendo válido para a maioria dos antropólogos’, declarou Díaz Maderuelo sobre o autor de ‘O Pensamento Selvagem’.

Após retornar à França, em 1942, mudou-se para os Estados Unidos como professor visitante na New School for Social Research, de Nova York, antes de uma breve passagem pela embaixada francesa em Washington como adido cultural.

Novamente em Paris, foi nomeado diretor associado do Museu do Homem e se tornou depois diretor de estudos na École Pratique des Hautes Études, entre 1950 e 1974, trabelho que combinou com seu ensino de antropologia social no Collège de France, até sua aposentadoria em 1982, quando dirigia o Laboratório de Antropologia Social.

Discípulo intelectual de Émile Durkheim e de Marcel Mauss, além de interessado pela obra de Karl Marx, pela psicanálise de Sigmund Freud, pela lingüística de Ferdinand Saussure e roman Jakobson, pelo formalismo de Vladimir Propp etc., é ainda um apaixonado por música, geologia, botânica e astronomia.

TRÊS CONTRIBUIÇÕES

As contribuições mais decisivas do trabalho de Lévi-Strauss podem ser resumidas em três grandes temas: a teoria das estruturas elementares do parentesco, os processos mentais do conhecimento humano e a estrutura dos mitos.

A teoria das estruturas elementares defende que o parentesco tem mais relação com a aliança entre duas famílias por casamento respectivo entre seus membros que, como sustentavam alguns antropólogos britânicos, com a ascendência de um antepassado comum.

Para Lévi-Strauss, não existe uma ‘diferença significativa entre o pensamento primitivo e o civilizado’, declarou Díaz Maderuelo, pois a mente humana ‘organiza o conhecimento em ´processos binários e opostos que se organizam de acordo com a lógica’ e ‘tanto o mito como a ciência estão estruturados por pares de opostos relacionados logicamente’.

Compartilham, portanto, a mesma estutura, só que aplicada a diferentes coisas.

A respeito dos mitos, o intelectual sustenta, desde a reflexão sobre o tabu do incesto, que o impulso sexual pode ser regulado graças à cultura. ‘O homem não mantém relações indiscriminadas, mas as pensa previamente para dinstinguir-las. Desde este momento perdeu sua natureza animal e se transformou em um ser cultural’, comentou Díaz Maderuelo.

Para Lévi-Strauss, as estruturas não são realidade concretas, estando mais próximas a modelos cognitivos da realidade que servem ao homem em sua vida cotidiana.

As regras pelas quais as unidades da cultura se combinam não são produto da invenção humana e a passagem do animal natural ao animal cultural – através da aquisição da linguagem, da preparação dos alimentos, da formação de relações sociais, etc – segue leis já determinadas por sua estrutura biológica.”

fonte: G1.com.br

A psicanalista Cristiane Marques, que apresentou trabalho no I Simpósio de Psicanálise de Niterói – RJ dará um curso sobre obesidade em Março de 2009.

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O evento acontecerá nos Jardins do Museu da República, no Catete, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. No estande nº 1, a Editora Companhia de Freud concederá descontos em seus livros a partir de 30 %.

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EM TEMPO: Claude Lévi-Strauss completa, nesta sexta-feira, dia 28 de novembro, 100 anos – lúcido e com boa saúde.

É com muito orgulho que faço este post. Depois de um trabalho árduo e muito dedicado finalmente aconteceu o I Simpósio de Psicanálise de Niterói – RJ em parceria com o MamaMia. Foi sucesso de público e produção de trabalho. Fiquei muito lisonjeada com cada pessoa que vinha fazer algum comentário, sempre carinhoso e enriquecedor, a respeito do evento que estava acontecendo. A participação da platéia com suas questões muito enriqueceu cada tema que foi abordado ao longo do dia de trabalho.

Gostaria de agradecer as participações dos palestrantes e mediadores, a parceria da Fonoaudióloga, Doula, Psicanalista e idealizadora do MamaMia Fabiola Costa, ao apoio incondicional da Psicanalista Fernanda Pimentel, ao Pâo & etc pelo patrocínio e à AMF pelo espaço e infraestrutura.

Assim que for possível disponibilizarei os trabalhos apresentados no evento. Me despeço com algumas fotos e com o desejo de fazer série.

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Domar as emoções faz bem ao bolso

Especializada em psicologia econômica, a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira tem um conselho a dar a empreendedores e investidores tanto na crise como na euforia: conheçam os seus vieses emocionais

Por: Eugênio Esber

Quando lançou Decisões Econômicas – Você já Parou para Pensar?, no ano passado, a psicanalistaVera Rita de Mello Ferreira mostrou ser boa de timing. Poucos meses antes, eclodira a crise no mercado norte-americano de hipotecas voltadas para o público de baixa renda, estopim da mais séria crise enfrentada pelo capitalismo desde 1929. O furacão que se armou a partir de Wall Street pôs em evidência um tema no qual Vera se especializou – a relação entre a doideira dos mercados e a mente, digamos, nada serena, de quem precisa tomar decisões debaixo de mau tempo. Autora de Estudos sobre Comportamento Econômico e Tomada de Decisão, esta paulistana de 53 anos prefere não ser muito específica sobre como decide o que fazer com o seu dinheiro. “Meu principal foco de investimento é minha própria mente. E neste campo faço grandes aportes e sou bastante ousada”, despista
a pesquisadora que, entre outros estudos, investigou a “atração” que, segundo ela, a inflação parece exercer sobre muitos brasileiros. Confira, a seguir, as percepções de Vera. E, se você se enxergar, não se perturbe. Somos todos um pouco assim.

Que fatores afetam o psiquismo dos tomadores de decisão em momentos de forte crise?

Toda decisão é resultado de uma interação de aspectos psicológicos. É assim em qualquer momento, e não só durante uma crise. Não existe nenhuma decisão, ou atitude, que não tenha uma forte base emocional, como a psicanálise já nos diz há mais de 100 anos. De outro lado, a neurociência, que é o que de mais moderno nós temos hoje, ao mapear o funcionamento cerebral do tomador de decisão já verifica a mesma coisa. Ou seja, o circuito emocional, que fica na base do cérebro, é o primeiro a reagir quando fazemos uma avaliação dos dados que estão sendo percebidos e quando consideramos as perspectivas para julgar qual é a opção mais acertada. Em resumo, o aspecto emocional está sempre presente.

E sempre de forma preponderante? Até em decisões suportamente racionais?

Sem dúvida. Porque esse circuito emocional é o que responde mais rapidamente, na medida em que tem a ver com um processo bem básico, rudimentar, que serve para nossa sobrevivência. É o homem das cavernas correndo assim que o mamute começa a vir em sua direção. Reagirmos por impulso, com base no estímulo que recebemos e no que ele promete. Se promete uma recompensa, a gente aceita e acredita que é real. Se promete uma dor, um perigo ou uma frustração, a gente quer fugir o mais rápido possível ou, pelo menos, afastar isso da consciência. Continuamos funcionando muito nessa base, apesar de hoje a gente já dispor de mecanismos mais racionais. Tanto que o homem moderno tem essa parte da frente da cabeça mais desenvolvida. É onde fica o córtex pré-frontal, que é responsável pelas alterações racionais. A idéia é que a gente possa se mover não só de acordo com o impulso ditado pelas emoções. Que consigamos dar uma paradinha para poder dominar o cenário e então fazer uma escolha mais ponderada, cuidadosa… E pensando de preferência no longo prazo para evitar aquela escolha imediata que costuma ser guiada pelos fatores emocionais.

Numa situação de tamanha volatilidade, como esperar que uma pessoa seja capaz de domar seus impulsos?

Há alguns antídotos possíveis. O primeiro deles é não tomar nenhuma decisão sem pensar bem… Não entrar na onda, não decidir deste ou daquele modo só para seguir a manada… Num momento nebuloso como esse, em que ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, qual a extensão e a duração da crise, e como impactará o Brasil, a força do boato cresce muito. É um momento em que todos se sentem inseguros e, diante de uma notícia qualquer que pareça ameaçadora, o primeiro impulso será encampar aquela história, mesmo que absurda. Hoje, fui questionada sobre o temor de algumas pessoas de deixar o seu dinheiro no banco porque a inflação estaria voltando, pelo menos nos produtos importados, e então poderia haver um confisco de poupança como no Plano Color… Quer dizer, já misturaram todas as estações… Pega uma informação aqui, outra ali, junta tudo, faz uma salada mista… Em outro momento, é claro que uma história dessas não colaria.

E, se todos acreditam, o boato vira fato.

Se todo mundo correr para o banco, é claro que o banco quebra. É a questão das profecias auto-realizadoras. O dinheiro não existe em si. É uma convenção social: todo mundo combina de acreditar que ele vale X. E todos nós nos movemos na economia baseados nessa crença. Quando essa confiança deixa de vigorar, as pessoas não sabem o que fazer.

Por que o efeito manada é tão irresistível? Por uma questão de autoproteção?

É isso. As pessoas se sentem muito desamparadas, inseguras. Só que, ao buscar proteção na manada, podem estar se expondo a uma situação de perda. Ok, se alguém que investiu em bolsa está precisando, e já, do seu dinheiro, então, paciência, deu azar, vai ter de sair e assumir o prejuízo. Mas veja: a maior parte das pessoas entrou na bolsa nos últimos cinco anos. Essas pessoas deveriam ter baseado sua decisão de ingressar no mercado acionário em um raciocínio de longo prazo. Agora não é hora de mexer no seu dinheiro. Deixa na bolsa e vê o que acontece daqui a mais cinco anos… Seguir a manada, nesse caso, é perda.

Uma crise desta magnitude tem o poder de fazer com que as pessoas mais convictas se percam de seus princípios e das suas estratégias?

Eu diria que a crise coloca a descoberto essa nossa precariedade psíquica que está presente o tempo todo, mas aflora de modo mais claro ante uma grande dificuldade. Quando as coisas estão indo bem, temos a impressão de que somos todos muito competentes, todos podemos ficar milionários em 15 minutos… E não é bem assim. Somos muito limitados na verdade. Do ponto de vista psíquico, somos muito frágeis – e não só nas crises. Por que a moda é tão poderosa ao nos impor padrões? Por que esta ânsia para ter o celular de último tipo, o carro bacana? Por que temos de estar todos juntos agindo deste ou daquele modo? São sinais evidentes dessa fragilidade interna que temos.

Por esta ótica, a manada jamais se desfaz…

A manada na crise é a mesma manada na euforia – apenas mudando de direção. No cenário anterior, em que todos estavam ganhando, criaram-se estes mecanismos “criativos” dos bancos de investimento que acabaram provocando a crise. Naquele momento, todos estavam tão subjugados pelas emoções como agora, quando a bolha explodiu. Só que, naquele cenário de ilusão, se alguém tentasse questionar seria convidado a ficar quieto ou sair de perto para não estragar a festa. O que existe ali são pessoas frágeis que combinaram de acreditar, naquele momento, que o coelho da Páscoa existe. Enquanto dá retorno, parece ser real. Mas em algum momento aquilo deixará de se sustentar. E então essa fragilidade de nossa estrutura psíquica ficará mais fácil de visualizar. Mas, repito, ela sempre está presente: seja na hora em que está tudo bem, seja na hora em que está tudo mal. A arrogância e a onipotência são irmãs gêmeas da impotência e da estupidez. Estamos falando da mesma coisa, apenas trocando o sinal. Nossa grande dificuldalde, enfim, é viver no plano real.

É verdade que todos saímos de uma grande crise melhores e mais maduros?

Seria bom se isso fosse verdade… Mas não é bem assim. Porque é muito difícil de aprender. Mesmo em um momento de crise, como esse, continua em nós aquela tendência muito profunda de atribuir responsabilidades aos outros. Todo mundo faz isso o tempo todo. Do contrário, eu teria de reconhecer minhas próprias limitações. E ninguém está a fim disso, não é?

A crítica à omissão das autoridades reguladoras norte-americanas reflete este traço de comportamento?

Sem dúvida. O Bush, claro, é o culpado de tudo (risos). É claro que ele tem responsabilidades nisso, e as autoridades regulamentadoras também. Mas se o mercado operou de forma desregulamentada, é o caso de perguntar: desregulamentou por quê? Porque todo mundo topou que desregulamentasse. Vamos começar por aí. Aqueles sujeitos vendendo títulos podres e fazendo operações altamente alavancadas, com distribuição de risco e todas aquelas coisas mirabolantes, estavam em uma ponta do processo. E na outra ponta, tinha o quê? Tinha gente comprando, certo? Então todos somos responsáveis pelo que está acontecendo.

Escolhemos aquilo em que vamos acreditar?

É. Inconscientemente, escolhemos.

Portanto, Wall Street inteira sabia o monstro que estava gerando e que aquilo estouraria um dia?

Sim. Em alguma medida, sabia da mandracaria toda que eles estavam armando lá. E faziam de um jeito que era para ninguém entender patavinas, não? Operações alavancadas com derivativos… O risco está com você? Não, comigo não está. Com quem é que está o risco, então? Não está com ninguém, pronto. O risco sumiu… Uma ilusão coletiva, alimentada pela voracidade… Sempre lembrando que na outra ponta tinha gente comprando o tempo todo, atraída pela promessa de ganhos rápidos. Aí é que está. Quando expectativa casa com o desejo, é difícil enxergar que é ilusão porque a gente tende a acreditar que aquilo que nos agrada é real.

Foi o que sucedeu com o presidente Lula ao dizer, inicialmente, que a crise era um assunto de Bush, exclusivamente? Ele estava se iludindo?

Eu não sei o que estava acontecendo na cabeça dele. Mas temos de tomar um enorme cuidado com o otimismo excessivo. Porque é a conta do otimismo excessivo que está sendo paga agora.

Até que ponto é possível acreditar que uma decisão foi tomada racionalmente?

Racional, puramente, nenhuma decisão é. Essa possibilidade não existe. Mas se você conseguir não se deixar domar pelas emoções já será algo muito importante para evitar tombos maiores. Para isso, é interessante baixar um pouco a bola, não alimentar expectativas – outra vez… – irreais. Pensar algo como “não tenho de tomar a melhor decisão do mundo, a mais perfeita”. Porque em momentos de forte incerteza a decisão perfeita não existe. A saída é tomar a melhor decisão possível. E não fazer nada também é uma escolha válida. Parar, refletir.

O resgate da confiança, no plano das pessoas e das economias, é algo muito difícil?

Sim. Leva-se muito mais tempo para reconstruir a confiança do que para destruí-la. Para a destruição da confiança, basta um peteleco. Já para a construção, nossa! Bota tempo, paciência e perseverança nisso! Destruir uma cidade é obra de um bombardeio, e pronto. Agora, vai reconstruir essa cidade…

Como este impacto chega ao investidor e ao empreendedor?

Na forma de um medo extremo. A pessoa deixa de considerar os dados da realidade para ficar com o seu sentimento de pavor, que é puramente interno. Não que não exista, objetivamente, um quadro de dificuldades. Mas o tomador de decisão junta a este quadro os fantasmas que ele próprio tem – e todo mundo tem seus fantasmas.

 

Tendemos ao exagero, sempre?

Sempre. Essa é a forma mais fácil de funcionar psiquicamente. E uma de nossas formas básicas de reagir é movida pelo imediatismo. Você faz qualquer negócio para reduzir o sentimento de tensão – inclusive cedendo a ilusões e a promessas mirabolantes. Por que as pessoas continuam caindo no golpe do falso seqüestro, já bem esclarecido pela mídia, inclusive com recomendações sobre o que fazer? Por que na hora em que recebe a ligação de alguém dizendo “Tô aqui com o seu filho” a pessoa pára de pensar. É o pânico. Ela só pensa em cessar aquele sofrimento. E faz qualquer negócio que o cara lá do outro lado mandar. A pessoa não está refém do sujeito que está lá na penitenciária. Ela está refém é dos próprios medos.

Como um tomador de decisão pode evitar que a cautela degenere em medo, em algo que o paralisa?

Uma maneira de ficar próximo da realidade e adotar cautela na dose correta é desenvolver o hábito de ponderar, de trocar idéias com outras pessoas, e ser capaz de olhar para dentro de você mesmo – até para saber em que momento você perde a isenção para analisar os dados. A pessoa que faz isso começa até mesmo a identificar se ela é pessimista sempre, se ela é otimista demais sempre, ou se ela é meio boazinha, ou se tende a ser mártir sempre… Enfim, vai percebendo melhor seus próprios vieses, como a gente diz na psicologia econômica.

O que é mais difícil de governar para um empreendedor, um investidor?

Sua própria mente.

Refiro-me a um dilema. É mais difícil governar a ambição de ganhar ou o medo de perder? A euforia ou o pavor?

Olha, não é para fugir de seu dilema, não, mas as duas coisas são exatamente a mesma. Porque as duas expressam uma cisão, que é o nome que a gente dá, na psicanálise, para dividir os processos de percepção entre cenários idealizados e perfeitos, de um lado, e cenários de hecatombe, de outro. E a gente se posiciona da mesma forma frente a um ou a outro – a diferença é só a troca de sinal… Ou eu acredito que está tudo perfeito, não vai ter risco nenhum, sou um gênio porque estou aqui surfando esta onda magnífica, e reprimo todas as percepções de limites pessoais, institucionais, etcétera, ou, quando o jogo vira, eu fico apenas com a percepção de que está tudo perdido, ninguém no mundo vai conseguir reconstruir coisa alguma, não tem mais jeito, é melhor desistir… Só que, quando você reprime uma percepção, ela vai ficando como que uma mola, que volta com toda força e atinge você com toda força quando o jogo vira..

Você disse que temos muita dificuldade para aprender com a crise. É o que explica termos ingressado em uma grande ilusão poucos anos depois do estouro da bolha das pontocom?

Sim. É difícil, muito difícil, aprender com experiência emocional. Por isso é que na clínica da psicanálise às vezes a gente trabalha com o mesmo paciente ao longo de 10 ou 20 anos. Nossa, quanto tempo!, alguns dizem. Ok, mas vai mudar a cabeça de alguém… É muito complicado. , Porque a gente procura, o tempo inteiro, evitar o contato com tudo aquilo que remete a nossas limitações e a nossos fracassos. “Não, é que se não tivesse acontecido tal coisa, se o Fulano não tivesse dito não-se-o-quê, se o governo não tivesse feito aquilo…” E dá-lhe justificativa. No ano passado, o autor do livro que alertou para a gula dos negócios de internet no final dos anos 90 esteve aqui no Brasil. Eu perguntei a ele se acreditava que as pessoas haviam aprendido alguma coisa com a bolha das pontocom. A resposta dele: “Sou cético”.

Frente a um investidor que se achava um super-homem e agora se vê como um farrapo humano o seu desafio, como psicanalista, é infundir otimismo?

Olha, eu tento ajudar a pessoa pra enxergar a sua própria realidade. Eu acredito que nenhuma pessoa consiga enfiar coisas na cabeça do outro. Isso não existe. Ninguém, nem o terapeuta, tem esse poder. No máximo se pode dizer que, quando dizemos alguma coisa que já está na cabeça da pessoa, aquilo reverbera. Agora, se o que dizemos não tem nada a ver com o que a pessoa já traz dentro de si, ela não dá a menor bola. Passa batido. Por isso é que eu digo que esta manada toda surgida com a crise não tem a ver com a bolsa e sim com pavores internos das pessoas.

Em um quadro de incertezas como o que se abateu sobre a economia mundial, como o líder deve se preparar?

Nestas situações o líder vive um estresse acentuado porque todo mundo espera que ele dê respostas. É é preciso ter cuidado para não abraçar o papel de messias, de passar para as pessoas a idéia de que você é capaz de salvar tudo e todos.

Nessas horas o lider personalista não está com nada?

Depende. Às vezes até há uma pessoa que realmente consegue ter uma tranqüilidade maior que a de todo mundo e, nesse caso, vai-se destacar, realmente. Mas mesmo neste caso é preciso ter cuidado para não se deixar contaminar pelas expectativas, também exageradas, de seus liderados. Afinal, as pessoas não gostam muito de tomar decisão. Elas gostam de empurrar isso para os outros, para não ter que se responsabilizar depois. Nessa hora, então, fica todo mundo querendo que o líder dê a resposta.

EXTRAÍDO DO SITE: www.amanha.com

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