Arquivo de outubro, 2010

Precisamos falar sobre Kevin

Publicado: domingo, 31 outubro, 2010 em psicanálise

 

Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver, é menos uma história sobre um assassinato em massa cometido por um adolescente do que um profundo e sincero questionamento sobre a maternidade. São confissões que raríssimas mulheres expõem em torno da maternidade.

 

A história é contada através das cartas escritas por Eva, num movimento catártico, ao seu marido relatando as incertezas da decisão de ser mãe desde o primeiro momento, a angústia do nascimento do filho, e o constante questionamento sobre sua responsabilidade e culpa pelo filho ser tão frio e calculista.

 

Um pai que escolhe ser cego às atrocidades que o filho demonstra desde os primeiros anos de vida e uma mãe que, eleita por Kevin como platéia de seus atos perversos, sofre solitariamente.

 

Esta mulher ainda decide ter um segundo filho como uma tentativa de provar pra si mesma que é capaz de criar uma criança amorosa e ‘normal’. Nasce Célia, uma menina que sofre barbaridades nas mãos do irmão, mas, ainda assim, o ama inexplicavelmente.

 

Roteiro fantástico para um grande filme. É o que quero apostar no projeto que será dirigido por Lynne Ramsay com lançamento previsto para 2011. Os atores confirmados são Tilda Swinton e John C. Reilly nos papéis de Eva e Franklin. Ezra Miller fará o papel principal, Kevin.

Leitura obrigatória!

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Fotos do filme A dangerous Method

Publicado: domingo, 31 outubro, 2010 em psicanálise

 

A Dangerous Method é o novo filme de David Cronenberg sobre a criação da psicanálise baseada na peça The talking cure.

Ainda sem previsão de estréia, ficamos apenas com as fotos recentemente divulgadas.

A psicanálise e as faces do singular e do social

Publicado: domingo, 31 outubro, 2010 em psicanálise

O mal-estar na civilização…

Publicado: sábado, 30 outubro, 2010 em psicanálise

Desatando os nós

Fonte: Diário Catarinense

Na capa de um livro de bolso lançado no começo do ano pela L&PM, um senhor de barba branca, cabelo ralo, olhos meigos e um charuto entre os dedos. Esse homem é Sigmund Freud, e a obra é O Mal-estar na Cultura, escrita por ele em 1929, já quando estava com 73 anos.

Se poucos de seus contemporâneos puderam alcançar a análise aguda da sociedade que Freud estava fazendo naquela época, no período entreguerras, o que esta obra teria a nos dizer hoje, sobre o mundo de 2010?

É no só-depois, transcorridas algumas décadas e com a preciosa ajuda de Lacan, que podemos ler a análise que vai ao âmago do sofrimento do homem civilizado, que tem que pagar o preço do progresso cultural com déficit de felicidade. Este é um ensaio que fala da angústia e da dor por sabermos ser impotentes frente às forças da natureza, por sabermos ser mortais e por termos que, irremediavelmente, precisar do outro. O outro que serve para nossa satisfação sexual, como companheiro na luta por sobreviver, mas também aquele com o qual rivalizamos e sobre o qual gostaríamos de exercer nosso poder e domínio.

O ensaio possui oito capítulos. Começa discutindo a religião como uma construção humana para dar conta do desamparo no qual estamos mergulhados. Desamparo diante do qual concebemos um pai todo-poderoso. Um Deus, não à imagem dos homens, mas um Deus à imagem de um pai que atende à nossa ilusão de que haveria alguém não impotente como nós.

Segue o livro apresentando-nos o que seria uma programação do homem: o programa do princípio do prazer, segundo o qual as nossas ações visariam a obter o prazer e evitar o desprazer. E constata que é um programa condenado a falhar, pois sua execução seria a eliminação de toda tensão, o que, em última instância, seria o aniquilamento do homem, seria a própria morte. A realização do programa da cultura implica na não realização do programa do princípio do prazer.

A grande questão, o intrigante e que causou impacto entre seus contemporâneos é que temos atitudes e pensamentos que não estão a serviço de obter prazer: masoquismo, submissão, repetição de situações desprazerosas, o recuo diante da iminência de realização de um projeto ambicionado. Sobre isso, Freud dirá que está para além do princípio do prazer, denominando pulsão de morte. Essa é a pedra no meio do caminho com a qual se deparou em 1920 e que implicou em uma releitura de toda a sua obra produzida até então. Aqui, em O Mal-Estar na Cultura, Freud apresenta para o público a análise da sociedade, do processo de civilização, à luz desse novo olhar sobre o homem.

Seguindo a linha de questionar a suposição de que o sentido da vida seria perseguir a felicidade, Freud analisa que todo o poder que o homem foi adquirindo tornou-nos verdadeiros deuses de prótese, tamanho os artifícios que fabricamos para nos dar mais potência, mas não nos trouxe mais felicidade. Talvez até o contrário, pois nossa capacidade de nos destruir não cessa de ameaçar.

Nesta obra, está presente a equivalência que Freud costuma fazer entre o processo de desenvolvimento da cultura e o de cada sujeito. Desde o momento, mítico, em que se formou a humanidade a partir da união dos irmãos para despojarem um tirano detentor de todo poder e de todas as mulheres. E em cada indivíduo, o mito do complexo de Édipo ilustra essa rivalidade e disputa com o pai, detentor da mãe – fonte de toda satisfação. É preciso renunciar à mãe, mas também destituir esse pai poderoso, e o saldo restante é a culpa.

O mal-estar na cultura, o mal-estar que Freud encontra em cada um como culpa. Culpa que independe de estarmos cumprindo ou não com os ideais, com os mandatos. Inclusive, a culpa aparece paradoxalmente mais forte nos sujeitos mais dedicados a cumprir as leis e a ordem. É que a culpa é a parcela de agressividade que, não podendo ser dirigida para fora, volta-se para o próprio sujeito.

Bem, se não puder ler toda a obra, leia ao menos os capítulos dois e o sete e encontre toda a força da escrita de Freud, onde ele nos mostra o encontro que teve com aquilo que não é o que gostaríamos de saber sobre nós, tão civilizados que somos.

É um Freud que vem dizer o quanto o princípio do prazer e aquele estranho além do princípio do prazer estão imbricados. Que a cultura se forma a partir das forças da pulsão de vida, de Eros, agregador, mas também tem que separar os amantes e os filhos. Porque um amor sem fim seria o próprio fim. E que a forma que a cultura tem para proteger o indivíduo da agressividade que ele exerceria sobre os outros, ameaçando a cultura, é voltá-la para si mesmo, sob a forma de culpa. É a pulsão de morte se satisfazendo no próprio indivíduo.

Enfim, é um sábio Freud falando da luta eterna entre os impulsos de amor e destruição, de vida e de morte. E que a vida, afinal, é o resultado dessa dualidade.

SORAYA VALERIM * | * Psicanalista, integrante da Seção SC da Escola Brasileira de Psicanálise

Marco Antonio Coutinho Jorge lança livro em Macaé

Publicado: sexta-feira, 29 outubro, 2010 em psicanálise