Arquivo de dezembro, 2010

Trailler Programa Dois Pontos

Publicado: quarta-feira, 15 dezembro, 2010 em psicanálise

O prazer deixa muito a desejar

Publicado: quarta-feira, 15 dezembro, 2010 em psicanálise

Arnaldo Jabor – Gazeta Digital – 15 de dezembro de 2010

Amigos me perguntam: você fez “A Suprema Felicidade” mas, o que é o prazer para você? Penso, penso e respondo: “Sei lá…”

Mas, como insistem, vamos tentar.

O prazer pode nos dar culpa e a culpa pode dar prazer. Os masoquistas sabem disso: todo prazer será castigado. Por isso, muitos preferem o doce sentimento de culpa , porque, se somos castigados antes, podemos ruminar sem medo o nosso vazio. O prazer deixa muito a desejar, o prazer nos deixa insatisfeitos porque acaba logo. O problema do prazer é que ele sempre demanda mais prazer, orgias mais perversas, drogas mais alucinantes. O prazer não quer ter fim. “Ah…e a felicidade?” me perguntam. (Se bobear, viro conselheiro sentimental…) Bem, a felicidade seria um prazer mais duradouro, comedido. Mas a felicidade está fora de moda em tempos tão velozes. A felicidade é analógica e o prazer digital. A felicidade ficou chata, tem de ser administrada, dosada e é feita também de dores, sofrimentos e duvidas. O prazer não; pega, mata e come. Todos fingem ter prazer é mais comercial. As caras das revistas ostentam uma gargalhada eterna. Prazer é voraz; quer botar o mundo para dentro, sugar, comer o mundo como um pudim, pela boca, por todos os buracos. Prazer é “cool”. Felicidade é careta.

Mas, vamos nos deter no capitulo do orgasmo, este retumbante final de sinfonias. O problema do orgasmo é a memória e a esperança. É bem fácil lembrar de um grande gozo no passado (mesmo ilusório) ou imaginar um grande uivo no futuro que ainda não chegou. Já o orgasmo no presente é assaltado por muitos estorvos: uma sirene de policia, o medo de falhar, a campainha do vizinho.

Há-os de vários tipos: o básico, o decepcionante e o apoteótico. De cinco estrelinhas a pontinho preto.

O apoteótico é raríssimo, é uma utopia que desqualifica os básicos tremores. Conheço um sujeito que na hora H pensou num gol de placa do Ronaldinho e quase subiu aos céus (apoteose). Um outro, que tinha ejaculação precoce, gozou ao apertar o botão do elevador da casa da mulher que tanto ambicionava. Fora isso, temos o básico, o arroz com feijão: “Pronto, meu bem, agora vamos jantar”.

Mas, você só pensa em sexo, dirão vocês. È…fazer o quê, se o sexo está tomando o lugar de todos os outros desejos? A verdade é que o prazer anda de cabeça baixa, deprimido, apesar do eufórico exibicionismo em revistas de celebridades. O prazer é obrigatório no mercado. O que nos falta, então? Falta o pecado. Todos podem tudo: “Sim, eu gosto de atacar nos mictórios das rodoviárias e me orgulho de minha tara!” diz o perverso sorrindo na TV. A permissividade total esvai a tesão. O prazer precisa da proibição. Sem lei não há gozo, diria Lacan se masturbando. Alias, o vicio solitário é bem seguro. A punheta é metafísica. Ela é onisciente e gira em todas as direções, é um caleidoscópio de mulheres ou de homens. Um dos sintomas deste mundo louco é a masturbação. Não me refiro a mera “coça na miúda”, nem no “estrangulamento do pele-vermelha”, mas à masturbação na alma de vidas auto-referentes, ao narcisismo de seres perdidos num deserto de possibilidades sem fim. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. Tínhamos pecados e proibições perfumando os prazeres, mas hoje ficou tudo referido ao sexo, para substituir frustrações políticas e sociais. A masturbação existe ate no grande amor romântico, onde os dois narcisismos se tocam, se beijam, se arranham, mas não se comunicam. Neste mundo solitário temos o “hype” da masturbação feminina, com o vibrador, o consolador de viúvas e solteironas. O vibrador tem vida própria, sem o incômodo inconsciente, sem diálogos constrangedores. O vibrador não é um pedaço -está inteiro; o homem, o “outro” é que foi amputado dali. O consolador, o vibrador é um amante delicado sempre pronto a satisfazer sua dama. E ela pode imaginar o homem perfeito ali, entre suas mãos. Os homens também gostariam de ter sua autonomia: serem livres e soltos como um pênis voador, comendo todo mundo com movimentos giratórios e beleza aerodinâmica. O mercado e a tecnociência provocam mutações em nós. Não queremos amar, queremos consumir alguém. Queremos ter o ritmo das coisas e, na progressiva digitalização do sexo, os corpos tendem a ser o campo de provas da eficiência dos mecanismos de prazer. Queremos o prazer da máquinas. E cada vez mais somos isso. Somos movidos por seus desejos que nos contaminam , somos movidos pela secreta vontade de existirem pois, assim como as bombas desejam explodir, os robôs também querem amar. E já somos suas cobaias inconscientes.

Mas ai, dirá o leitor mais reflexivo, mais estóico, menos epicurista, mas sábio e, talvez, mais velho: “Sim, mas e a contemplação calma da natureza, os lagos dourados, as flores e as crianças correndo, e as auroras, os céus estrelados? E a arte? Isso não é prazer?” Sim, sim, mas por trás dessa calma contemplação de auroras e belezas, florestas e oceanos, há um ensaio para o fim, há o preparo para o maior prazer de todos, há a saudade oculta de algo que está alem da vida, ou antes dela. Entre flores e lagos dourados contemplamos nosso fim. É uma saudade não sabemos de quê…

È um prazer alem do prazer (Freud), é o prazer da matéria. A matéria quer paz. Nós somos um transtorno para a matéria que quer voltar a seu silencio. A vida e o prazer enchem o saco da matéria que é obrigada a nos suportar. A matéria olha nossos arroubos de vida e espera pacientemente que acabe a valentia para voltarmos ao prado, à grama, à terra, ao sossego da tumba. Mais além do principio do prazer, está a invencível vontade de morrer. A matéria sonha com a paz. Somos sonhados pela matéria da qual somos apenas um tremor, um despautério, uma agitação banal. A matéria nos sonha com tanta perfeição que pensamos que temos espírito.

O prazer da matéria é paciente. Nós não sabemos ainda, mas nosso grande prazer será sentido quando não estivermos presentes.

fonte: http://www.gazetadigital.com.br/articulistas.php?key=Arnaldo+Jabor&codcaderno=17&GED=6951&GEDDATA=2010-12-15