Arquivo de julho, 2011

PSICANÁLISE & SÉTIMA ARTE: Clube da luta

Publicado: quinta-feira, 28 julho, 2011 em psicanálise

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Dicas de leitura em psicanálise

Publicado: sábado, 23 julho, 2011 em psicanálise

A coleção Passo a passo em psicanálise traz livrinhos escritos por conceituados psicanalistas a respeito de vários temas psicanalíticos.

Os conceitos são abordados de uma forma introdutória bem interessante para os que querem se aproximar da leitura psicanalítica.

E o preco é bem acessível.

Para que serve a psicanálise? foi escrito pela psicanalista Denise Maurano e é uma boa pedida. Sai a R$ 12,90 no site Submarino.

Outros títulos:

Arte e psicanálise

Cinema, imagem e psicanálise

O conceito de sujeito

A interpretação

Lacan, o grande freudiano

Trauma

Sonhos

Édipo

Feminino / Masculino

Freud: criador da psicanálise

Mito e psicanálise

A transferência

 

 

Excelente texto de Eliane Brum na Época

“Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

 

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

 
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.”

Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista

Afinal, o quê é psicanálise?

Publicado: quarta-feira, 13 julho, 2011 em psicanálise

       Muitas pessoas questionam o que seria uma psicanálise. Achei importante elaborar uma tentativa de esclarecimento.

       Psicanálise é um tratamento desenvolvido por Freud a partir da sua descoberta do inconsciente. Consiste em uma escuta investigativa do sujeito no seu sofrimento. É importante sublinhar que simplesmente querer abolir este sofrimento ou mesmo conseguir arranjar uma forma de exterminá-lo não basta para pôr fim à questão. O melhor caminho é elaborar um saber a respeito de como aquele sujeito se constituiu. Ou, no caso de psicanálise com crianças e adolescente, em como essa constituição está se dando.

       Uma pessoa nasce inserida em um contexto familiar com suas particularidades. Nenhuma pessoa é igual a outra. A escuta analítica se dá no caso a caso.

       O lugar do sujeito no desejo dos pais, o nome recebido, a dinâmica dessa família, a idade que o sujeito tinha quando certos eventos ocorreram, a relação parental, – entre outros detalhes – são reveladores para tomar conhecimento de que posição o sujeito se coloca frente ao outro e aos acontecimentos da vida. A partir destes detalhes, o sujeito constrói um certo ‘discurso inconsciente’. Discurso este que o analista está apto a escutar e devolver, em forma de intervenções, ao sujeito que o busca.

       A escolha da profissão, dos parceiros amorosos e decisões tomadas estão intimamente ligadas a todo este contexto.

       Psicanálise é longa? Sim. Uma análise levada a sério é longa, o que não quer dizer que os efeitos sejam demorados. É preciso levar em conta que o sujeito continua vivendo e encarando assim tantos outros eventos que são importantes serem trabalhados.

       Psicanálise é cara? Sim. Mas não quer dizer que o menos favorecido não possa se submeter a uma análise. É cara para cada um a sua maneira.

       Psicanálise é dolorada? Também. Afinal, se dar o trabalho de se questionar não é nada fácil.

       Vale lembrar que um sujeito sem sofrimento não existe. É mito. Convivemos diariamente com o que chamamos de “dor de existir”. O fundamental é que um sujeito que freqüente ou já tenha freqüentado um psicanalista e tenha minimamente sido avisado da existência e do funcionamento do inconsciente passa a ter uma atitude transformadora perante a vida.

       No senso comum o termo psicanálise é muitas vezes confundido com psicologia (psicoterapia) e psiquiatria. E a verdade é que são 3 atuações radicalmente diferentes. O que expliquei acima se trata de psicanálise. Quanto às outras atuações um psicólogo (psicoterapeuta) e um psiquiatra podem ser buscados para esclarecê-las.

 

Flávia Albuquerque é psicanalista lacaniana e atende em Ipanema e Icaraí

Em junho fechamos um ciclo de estudos que se estendeu por 4 anos: o grupo com o tema ‘A erótica em Psicanálise’ e o grupo sobre a ‘Neurose obsessiva’. Nesse tempo passamos por textos paradigmáticos de Freud e por partes pontuais de 2 seminários de Lacan: ‘A transferência, livro 8’ e ‘As formações do inconsciente, livro 5’.

A partir de agosto, iniciaremos um novo eixo temático para o nosso estudo em Ipanema que acontecerá semanalmente nas terças às 19h. ‘A prática analítica’ comportará questionamentos que abrangem o quê são os efeitos de uma análise, a prática lacaniana, a função do analista, entrevistas preliminares, as estruturas, entre outros.

O primeiro encontro ocorrerá no dia 02 de agosto, primeira terça-feira do mês. O primeiro dia será gratuito e têm vagas limitadas. Tendo interesse em participar, entre em contato pelos telefones 7870-2323 / 9792-8326 ou por e-mail flavia@pontolacaniano.com.br

O grupo de estudo do seminário 1 de Lacan ‘Os Escritos Técnicos de Freud’ permanece normalmente em Niterói toda segunda às 19h.