O que a psicanálise lacaniana pode dizer sobre a doença autoimune?

Publicado: domingo, 30 outubro, 2016 em psicanálise

Sabe-se, a partir do discurso médico, que a doença autoimune é a patologia que faz o corpo se defender dele mesmo. O que a psicanálise pode construir como saber a partir deste saber médico? Que a doença autoimune é o sujeito se defendendo dele mesmo. Afinal, o sujeito é aquele que se defende do seu desejo.

Espantoso? Pode surpreender muitos de vocês que o movimento do sujeito não seja a favor do desejo, mas contra ele. Isso não surpreende mais o psicanalista, mas ele sustenta um espanto. Pois o dia que o psicanalista parar de se espantar com o que é da ordem do sujeito, ele ensurdece sua escuta.

E esta é uma das maneiras de marcar a radical diferença da escuta psicanalítica em relação a outros tipos de escutas clínicas. O analista não vai acreditar de antemão naquilo que é dito pela pessoa que o busca em análise como se fosse literal. Algo do tipo: “me queixo deste sintoma e quero me curar dele”. Tem sempre um além, um contexto, um discurso envolvido. Uma das queixas do ser humano – quando muito atento – é justamente a de se perceber sabotador do seu próprio desejo.  E é isso que ele não entende sobre o que se passa com ele. Porque não se trata de uma lógica racional. É uma lógica outra, a do inconsciente.

Mas o fato de ser inconsciente não desculpabiliza o sujeito, o inconsciente não é aquilo que te autoriza a falar: “me desculpe, foi inconsciente, eu não tive a intenção”. Pelo contrário, a psicanálise lida com o inconsciente numa perspectiva de responsabilidade. É preciso fazer com que o sujeito se depare com as consequências dos seus atos inconscientes. Uma análise segue numa direção de fazer com que o sujeito se responsabilize e deixe de lado a estratégia da vítima de ficar culpando o outro.

Desde janeiro último, venho fazendo transmissões pelo snapchat PONTOLACANIANO, e quem tem me acompanhado nos últimos meses, testemunha meus recentes diálogos com o nutrólogo Dr. Barakat, que também faz transmissões por lá (DOUTORBARAKAT). Há alguns dias trabalhamos – ele a partir do campo da medicina e eu a partir do campo da psicanálise – o tema da doença autoimune. Ele sublinhou uma série de orientações de melhoria dos hábitos alimentares e de vida para as pessoas que sofrem desta doença. Mas houve um ponto bastante enfático da fala dele que me interessa destacar aqui: ele convocou essas pessoas a se responsabilizem e pararem de se queixar que esta e tantas outras doenças são devido a genética. Com bastante frequência, ele explica que há, de fato, a genética que se herda de uma família, mas a expressão deste código genético necessita que alguém aperte o gatilho, e esse alguém é a própria pessoa que porta este código. Porque ele não é acometido de uma doença autoimune, como se tratasse de uma passividade, mas ele produz esta doença.

Numa análise, a direção do tratamento é fazer com que o sujeito se dê conta de que ele não é vítima da vida, das suas errâncias, das coisas que o faz adoecer, sofrer. Não é vítima do outro, mas o grande construtor do seu caminho. Mesmo a partir daquilo que o sujeito carrega sem depender dele – como o código genético – há uma possiblidade de transformar, inventar e, portanto, produzir outras saídas, outros avatares da expressão daquilo que ele carrega a despeito dele mesmo.

Outro detalhe importante a ser destacado da fala do Dr. Barakat é quando ele aponta como característica da doença autoimune o consumo de alimentos considerados inflamatórios, que causam inflamação no intestino. Sabem o que é mais interessante? Aquele que chega numa análise com uma doença autoimune muito rapidamente demonstra o quanto tem uma relação ‘inflamada’ com a vida. Ele inflama! Ele é passional! Ele confere gravidade a situações que não teriam tanto peso de antemão.

Há uma preciosa informação médica: o intestino é o órgão do corpo humano que mais produz serotonina, o neurotransmissor que produz o bem estar. Não é impressionante? Nos faz entender a sabedoria popular que chama o irritadiço de enfezado! Não é a toa que esta informação faz Dr. Barakat afirmar que a depressão começa no intestino. Dizendo que toda essa inflamação, toda esse mal estado da flora intestinal é a porta de entrada para depressão.

E quer saber? A psicanálise assina embaixo. Sabem por quê? Porque não se trata de uma escolha racional, uma escolha óbvia, mas uma escolha inconsciente, do sujeito, da sua dificuldade de sustentar a sua existência, com suas errâncias. A depressão, assim como as doenças autoimunes, são alguns dos sintomas possíveis do mal estar do sujeito. O quê a psicanálise escuta é este mal estar e devolve ao sujeito esse discurso que ele porta para que ele possa se implicar nisso. Por isso uma análise se difere bastante da questão da psiquiatria que fica cada vez mais forjando diagnósticos, nomenclaturas, catalogando cada sentimento e posição subjetiva. O psicanalista escuta o sujeito. Os sintomas existem aos montes. Mas todos eles dizem do mesmo: o sujeito. Singularmente.

O corpo não é apenas um bolo de carne, é portado por um sujeito, ele não é uma situação orgânica autônoma. Quando um sujeito que porta um corpo, corpo este que chega ao ponto de produzir uma doença para se defender de si mesmo é sinal de que a problemática é muito maior e muito mais antiga do que se imagina. Não é de hoje. Então é uma situação complexa, de acordo com a complexidade do ser humano. É extremamente danoso cair na armadilha de que um medicamento vai dar conta por si só de algo que na origem tem causa psíquica. Isto é fundamental ser entendido, porque se pessoas com doenças autoimunes não procurarem, junto com todos os outros tipos de tratamento, um lugar pra trabalhar as suas questões como um tratamento analítico, vão sofrer de forma extremamente dolorosa as consequências destas doenças. Com crises cada vez piores.

É preciso se perguntar: Você está dando a fundamental importância para o seu funcionamento psíquico? Para o seu modo de operar? Para a posição que você está tomando na sua vida? Está se questionando? Tem um profissional competente realmente apto a te ajudar a trabalhar essas questões?

O trabalho de análise é uma chance – e não é uma chance qualquer – de um sujeito se implicar consigo mesmo. Justamente com aquilo do qual se defende: de si mesmo. Não se trata de lançar mão de tratamentos breves. Não será nem de longe eficaz. É um trabalho da existência. Aliás, todo ser humano tem que se dar o trabalho de existir. Quem tem um doença autoimune, quem chega a este extremo precisa trabalhar ainda mais porque tem alguma coisa muito mais capenga na sustentação dessa existência. É preciso investir nisso. Senão não haverá tratamento, medicamentoso, alimentar, de atividade física que se sustente.

Aliás, a atividade física tem uma importância fundamental na vida de todos nós. O nosso corpo é uma máquina orgânica que sofre a influência subjetiva. Ele precisa se movimentar, ter descarga. A descarga da atividade física é imprescindível porque se não houver uma descarga desse tom, o corpo vai se virar para fazer a descarga que for possível. E qual é a descarga que vai ser possível se não houver atividade física? A doença. Então, dá trabalho, é um sacrifício se movimentar, assim como dá trabalho buscar uma análise, trabalhar em cima das questões. Mas é preciso insistir. É caro? Precisa de investimento? Muitas vezes sim! E aqui cabe uma frase de Freud que, a meu ver, é uma das mais preciosas da obra dele: “Nada é tão caro quanto à doença e a estupidez”.

Eu gostaria de destacar ainda um outro detalhe da fala do Dr Barakat: àquelas pessoas que não acreditam que se escolhe ter depressão, que se escolhe ser feliz, que se escolhe o que se vive, ele nomeia de pessoas céticas. Poderíamos ainda ser mais duros e nomeá-las de cínicas. A conclusão é que quando uma pessoa chega ao ponto de desenvolver uma doença autoimune, ela chegou ao extremo da problemática psíquica. Não dá pra viver de uma forma cínica em relação a isso. É preciso se propor a trabalhar em cima disso.

E qual o olhar sobre a criança nessa questão da doença autoimune? Tenham em mente o seguinte: o problema de uma criança é sempre uma resposta ao problema dos pais. Quando uma criança adoece desse jeito, quando apresenta um problema, seja ele qual for, ela está denunciando o quão problemática é a dinâmica dessa família.

 

Flávia Albuquerque – psicanalista lacaniana

(21) 99792-8326

flavia@pontolacaniano.com.br

snapchat e instagram: pontolacaniano

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